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auto-terapia

um blog onde escrevo o que sinto e partilho as minhas ideias para quem quiser ler

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E agora? E depois?


CrisSS

Oiço dizer que este não é o momento de falar do planeta, da natureza, do ambiente, e eu percebo, aceito os argumentos da urgência da sobrevivência e do respeito para com quem está doente, ou a lutar pela vida ou a arriscar a vida por todos nós, para os quais as minhas palavras são de mais profunda solidariedade. Mas, peço que me desculpem, eu sinto que sim, que temos que falar, temos que pensar, temos que aproveitar este momento em que temos mais tempo, para refletir, para ponderar, para saber e conhecer mais, para que depois quando podermos voltar às nossas vidas, estas não sejam as mesmas...

Não se trata tanto de agir, mas sim de olhar em volta, de estar atento, de perceber e de sentir! Perceber que algo mudou, que há coisas que estão diferentes, que talvez o silêncio das ruas nos permita ouvir outros sons, que talvez a ausência de pessoas nos permita ver outros seres vivos, que talvez nos céus agora haja mais pássaros, mais arco-íris, mais luz, mais azul... que talvez agora nos jardins, nos campos, nos parques haja mais flores, mais folhas, mais verde... que talvez agora nos rios, nos mares, nos lagos, haja mais peixes, mais corais, mais azul... que talvez agora tenhamos tempo para ver o que nos rodeia com outros olhos, para pensar em questões às quais não dávamos importância, para nos sentirmos ligados de outra forma ao planeta e ao mundo...

Não sei porque razão estamos agora a passar por esta pandemia. Há quem ache que era expectável, pois sempre houve epidemias ao longo da nossa história e mais cedo ou mais tarde teríamos que passar por isto. Há quem ache que há uma guerra biológica motivada por questões económicas e de geopolítica. Há quem ache que é um castigo divino pelos nossos pecados e fraca fé em Deus. E há quem ache que o Universo está cansado, talvez até moribundo, e que como a natureza é que controla a vida neste planeta teve que agir, já que nós nada fazíamos. Não sei qual destas teorias é que está certa e nem quero saber. O que sei, ou melhor o que sinto, e tenho vindo a sentir nos últimos anos é que a nossa vida atual, virada para o ter, para o consumo, para o desenvolvimento económico sem responsabilidade social nem ambiental, já não me faz sentido. E suspeito que este meu sentimento pode estar ligado ao momento que agora estamos a viver.

Algo tem que mudar! Algo terá que ser diferente depois do que vivemos... Há dias em que tenho uma esperança imensa de que as pessoas, os governos, as empresas, vão repensar o seu modo de estar, as suas atitudes, no fundo o nosso estilo de vida. Mas há outros dias em que temo que depois tudo fique na mesma, que rapidamente se esqueçam os canais de Veneza límpidos, as tartarugas a desovar nas praias da Índia, os céus da China sem poluição, entre tantas outras mudanças ambientais a que temos assistido nas últimas semanas.

Poderão dizer-me que para mim é fácil, pois já tinha mudado de vida, logo estaria mais desperta para ouvir estes sinais e para adaptar o meu comportamento futuro no sentido de preservar o que de mais precioso temos que é o nosso planeta. É verdade que as mudanças se fazem lentamente dentro de nós, que as novas ideias, os novos desejos, os sonhos a concretizar vão devagarinho crescendo no nosso íntimo até que um dia compreendemos que já não somos iguais ao que éramos, que algo está diferente em nós e que a nossa vida irá ter que mudar se queremos estar bem e em paz connosco próprios. Sei por experiência própria que não é por decreto, nem é devido a uma crise que a mudança acontece, mas acredito que é um princípio, é um alerta, que talvez uma pequena semente fique plantada no nosso pensamento, no nosso coração. E pode ser que um dia acordemos e façamos algo de forma diferente ou reparemos em algo que nunca tinhamos notado, como uma grande amiga minha me disse um destes dias que só agora se dava conta (porque tinha mais tempo) da  quantidade de plástico que nos rodeia, que não é possível comprar quase nada sem plástico e que agora está a reciclar e tomou consciência de que tem sacos e sacos com plástico diariamente...

A mudança de estilo de vida depende de nós, mas não só. Ficou claro que a economia tem que mudar. Tem que ser uma economia mais verde, mais circular. Tudo pode e deve ser reciclado, ou reutilizado, ou transformado. O modo de produção tem que ser sustentável do ponto de vista ambiental. As nossas empresas, as nossas fábricas, não podem poluir nem desperdiçar, é um imperativo moral, na minha opinião. Há algumas mudanças que são urgentes e perfeitamente exequíveis. Temos que exigir carros elétricos a preços acessíveis a qualquer cidadão. Temos que deixar de produzir os outros carros e de usar combustíveis fósseis, doa a quem doer. Os nossos transportes públicos têm que ser elétricos, os táxis, os Uber, também. Temos que repensar a forma como viajamos, preferir os comboios aos aviões e barcos de cruzeiro. Sabiam que 1 km de avião é 45 vezes mais poluente que 1 km de comboio de alta velocidade? Não se trata de regredir ou de parar o avanço tecnológico, mas sim colocar a ciência e a tecnologia ao serviço deste desígnio que é termos um planeta mais saudável e podermos ser nós próprios mais saudáveis.

Há outras pequenas mudanças que temos que fazer. Sim, reciclar é importante, mas consumir menos também é. Quando deitamos algo fora, pensar em qual será o destino desse produto? Poderá ser reutilizado por outra pessoa? Poderá ser transformado noutra coisa? Ou vai apenas encher mais ainda os kilómetros de lixeiras a céu aberto? Será que precisamos de tantas coisas novas? E qual a minha responsabilidade sobre o velho, o que já não quero ou já não uso? Estas são as perguntas que teremos que fazer diariamente.

Também é importante repensarmos a nossa relação com o campo, com o rural, com a agricultura, com a floresta. Não me interpretem mal. Adoro a cidade. Os meus avós paternos eram puros alfacinhas, vivi, trabalhei e conheço Lisboa muito bem. Mas sempre joguei um xadrez em dois tabuleiros como dizia um grande sociólogo que tive o prazer de conhecer, e o campo também sempre fez parte da minha vida, da minha infância, das minhas memórias e sinto-me uma privilegiada por isso e muito grata por também ter podido proporcionar essa vivência aos meus filhos. No meu caso esta vivência teve como resultado escolher o campo para viver nesta nova fase da minha vida e se esta opção se revelou a mais acertada agora neste momento difícil que estamos a viver... E talvez vocês também tenham por aí algures neste nosso país pequenino um pequeno cantinho que era dos avós, dos tios, dos pais e do qual se esqueceram, ou que nunca valorizaram e ao qual é tão importante voltarem. Porque este voltar, não quer dizer que abandonem tudo, mas quer dizer que respeitam, que preservam, que não deixam ao abandono e permite passar uma mensagem de valorização, de orgulho e de admiração pela natureza, pelo ambiente, pelo planeta. Sim, porque acreditem, a preservação do planeta começa aqui, na nossa casa, no palheiro a cair aos bocados que era dos bisavós, no pinhal que ardeu e está abandonado na terra dos pais, na casinha de pedra que nunca se visita na aldeia, no campo agrícola que agora já não tem nada plantado. E é urgente passarmos esta mensagem aos mais novos que querem fugir do interior, das suas vilas de origem, do mundo rural, porque sentem que nada aí tem valor e que na cidade é que se vive bem...

É uma mudança de paradigma, de visão do mundo, mas não é assim tão difícil e alguns de nós já começaram e outros estão agora a pensar como é que podem mudar... É uma missão para as escolas, para os governos, para as associações, para todos nós! Porque não podemos voltar à mesma vida que tínhamos antes, porque agora sabemos que é possível, que podemos fazer diferente... e porque é mesmo preciso se queremos que todos no futuro fiquem bem...