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auto-terapia

um blog onde escrevo o que sinto e partilho as minhas ideias para quem quiser ler

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No rescaldo do Natal...


CrisSS

Aqui estou eu no rescaldo de mais um natal, entre mortos e feridos, lá me salvei mais uma vez, mas as cicatrizes são grandes e a vontade de desistir é cada vez maior...

Perguntam vocês: mas desistir do quê? Do natal? E atónitos, relembram-me que há uns dias atrás estava eu tão entusiamada, a publicar fotos da minha árvore e presépio no facebook e até a fazer postais de natal digitais para enviar aos colegas! Então, mas o que aconteceu? O que mudou entretanto?

De facto, não aconteceu nada que não seja habitual, nada que não seja normal na minha vida, isto é, apesar do meu entusiamo acerca desta época natalícia, tudo parece concorrer para que esta data seja apenas o momento costumeiro de expetativas defraudadas e tensão familiar...

Eu gosto do natal, realmente gosto, e não me caiam em cima aqueles que acham que o natal já não é o que era, que se transformou numa loucura consumista, que é um período de egoísmo em que para nos sentirmos melhor com a nossa consciência resolvemos ser solidários, que o natal deve ser todos os dias e etc, etc. Eu não enfio essa carapuça, pois não consumo em excesso no natal (a não ser doces, é óbvio!), sou solidária sempre que posso ao longo do ano e não especialmente no natal, e o meu natal é sempre o que era, porque insisto em preservar as minhas tradições contra tudo e contra todos! Porque o natal para mim é isso mesmo: um ritual de partilha e de convívio. E na minha modesta opinião os rituais fazem falta na nossa vida dita moderna e são algo que eu gosto de cultivar e manter.

Os rituais fazem falta porque nos obrigam a parar para refletir e organizar as emoções, por um lado, e por outro lado, porque nos fazem elevar o espírito acima do quotidiano, celebrando a existência com aqueles que nos são mais próximos, de preferência em alegria e comunhão.

Desde sempre a humanidade sentiu necessidade de ter rituais e acreditem foram eles, também, que nos ajudaram a distinguir dos animais e a formar uma consciência coletiva que deu origem a sociedades cada vez mais complexas e à civilização como nós a conhecemos hoje. Esses rituais podem ser coisas tão simples como elaborar um presépio ou enfeitar a árvore de natal ou algo muito mais elaborado como juntar um grupo de pessoas num determinado local especial e em conjunto juntarem energias, pensamentos e ações com um objetivo comum, seja ele a paz espiritual ou a festa pura e simples.

Estes rituais fazem-nos falta, pois permitem-nos reunir afetos e sentimentos à volta de um tema que nos importa e que é significativo para nós e, principalmente, porque são momentos de partilha coletiva, de construção de comunidade e de sentimento de pertença a algo maior, algo que nos transcende e que nos eleva!

Por tudo isto o natal é para mim importante, pois é um desses momentos rituais e é como tal que eu o identifico. Para mim o natal é um ritual que nos mobiliza a todos e que pode ser um desses momentos raros em que nos sentimos maiores, mais dignos, mais em paz connosco e com os outros.

Mas o pior é quando não é...

E depois da expetativa estar criada é muito difícil aceitar que não seja, mas podem ser tantas as razões para o natal não ser tudo aquilo que esperamos. Tantas coisas se jogam nesses dias, tantos imprevistos podem acontecer... Estou a lembrar-me da pessoa que está sozinha na vida, do familiar que adoeceu e está ausente, da amiga que está longe do país, do filho que este ano passa o natal com a família do pai, das famílias que não têm dinheiro para a ceia de natal, dos pais e avós que partiram e já não estão entre nós e dos membros da família que aproveitam este dia para expor todo o seu mal-estar e reivindicar tudo o que não conseguiram viver nos anos que passaram, sem se darem conta dos outros que fazem parte das suas vidas e que queriam viver o natal em harmonia.

Perante este cenário podemos fazer o exercício de pensar que a vida é assim e aceitar que nem tudo é como nós queremos, mas fica sempre uma pequena mágoa, porque não somos perfeitos e porque desejámos que este fosse um natal de paz, harmonia, alegria, amor e acima de tudo compaixão...

Talvez seja assim que eu me consiga reconciliar com o meu natal e pensar que tenho que transformar a memória deste meu ritual, num processo de compaixão e perdão, bem dentro do espírito desta época e mais uma vez aceitar que não posso mudar o passado, nem as pessoas que são a minha família e que em vez de me zangar por isso, tenho que ficar contente pelas outras pessoas que tenho, família e amigos e que fazem parte do meu círculo afetivo e com as quais posso e devo reeditar rituais passados e construir também novos, porque não?

Pois é isso mesmo que vou fazer, repensar o meu natal, e não esquecendo as minhas tradições e aquilo que me conforta, encontrar um novo caminho para o meu ritual, onde os imprevistos existem, é claro, mas acima de tudo a partilha e a comunhão de ideias entre pessoas que querem mesmo estar juntas em paz e harmonia é o principal elemento a celebrar!

E tem mesmo que ser assim, pois tenho um filho que precisa de ter um verdadeiro ritual para perpetuar no futuro...

 

 

 

 

 

 

 

Elogio da amizade


CrisSS

Nem vou comentar a minha ausência mais uma vez, pois não sei explicar porque não escrevo como gostaria, apesar de todos os dias me virem à cabeça ideias, temas, assuntos, sobre os quais gostaria de falar e escrever, e que poderia partilhar como é suposto neste meu blog. Em última  análise chego à conclusão que sou preguiçosa, ponto final. Sim, é isso sou preguiçosa (embora esteja sempre em permanente atividade e numa espiral de movimento!) mas a realidade é que encontro todas as desculpas para não escrever, o que é pena, dizem-me.

 

E quem mo diz são os meus amigos e amigas e é por eles e para eles que cá estou novamente a escrever umas linhas sobre, precisamente, a amizade.

 

Sempre tive muitos amigos (perdoem-me se daqui para a frente não diferenciar o género) e nunca senti falta de estar acompanhada. Não sei o que é a solidão, nesse sentido, e sei que sou uma privilegiada por isso, pois essa é mais uma das coisas pelas quais devo estar grata na minha vida.

 

Tenho amigas e amigos de todas as "espécies", de vários contextos e conjunturas, de sempre, de todos os dias, de longe, da família e gosto muito de os ter e de cultivar essas amizades que me enchem o coração e tornam a minha vida muito mais colorida.

 

Tenho amigos de infância, uns da escola primária, outros vizinhos com os quais brincava na rua, que se mantêm ao meu lado até hoje! Tenho amigos da adolescência, das noitadas da juventude, das tertúlias no café do bairro. Tenho amigos da faculdade, com os quais vivi intensamente esse período de formação profissional, mas principalmente, pessoal. Tenho amigos do trabalho, que se têm mantido ao longo do tempo, apesar das mudanças de serviço por que todos vamos passando. Tenho amigos da escola do meu filho, contexto que nos juntou já desde a creche e com os quais vou dividindo as angústias da parentalidade e outras angústias.

 

O que mais me apaixona nesta coisa da amizade é que quando é verdadeira não esmorece e sobrevive a todas as diferenças, às distâncias, à passagem do tempo, às zangas, aos afastamentos e às vezes até sai fortalecida.

 

Também me fascina o facto de não sabermos explicar porque somos amigos de determinadas pessoas, ou como nasce uma amizade (embora tenha lido à pouco tempo de que parece que há uma semelhança qualquer genética entre os amigos, o que não me admira), apenas sentimos que aquela pessoa nos é muito próxima, nos compreende como ninguém e sabemos que estará lá para o que der e vier...

 

Gosto da sensação de intimidade e segurança que me dá o facto de poder ligar a uma amiga que está longe e que não vejo à anos e saber que vamos falar como se estivessemos estado juntas ontem e sentir que apesar de nem termos partilhado a vida quotidianamente, ela sabe o que eu estou a sentir e eu compreendo o que ela está a passar.

 

Gosto da intensidade com que se pode discordar de uma amiga e até às vezes dizer coisas que magoam, para a seguir perdoar ou pedir desculpa, porque o que importa é reconhecer que errámos ou que nos excedemos e manter acima de tudo a nossa amizade.

 

Gosto destas zangas que nos permitem conhecer melhor o outro e ir mais fundo na amizade, que é também reconhecimento da importância que o outro tem na nossa vida e de que podemos evoluir juntos como amigos.

 

Gosto muito de rir com as minhas amigas, de dançar, da cumplicidade de um jantar ou de um almoço, ou até de um telefonema onde falamos de tudo e de nada, reforçando o ritual da partilha de sentimentos e emoções que é a base da amizade.

 

Gosto mesmo muito dos meus amigos e por isso não resisto a partilhar com vocês um pequeno texto que escrevi recentemente, por ocasião de um dos momentos mais especiais da minha vida, no qual mais uma vez os meus amigos e amigas se revelaram extraordinários na sua amizade, e que quero agora dedicar a todos os meus amigos em geral:

 

"Queridos amigos e amigas,

Nem imaginam o quanto é importante a vossa amizade!

Todos nos conhecem já há algum tempo, uns são amigos de longa data, outros mais recentes, mas os laços que nos unem a todos vós são muito fortes e foram tecidos numa partilha diária de alegrias, tristezas e principalmente numa partilha constante de cumplicidades e até intimidades…

É de todos estes momentos que se faz a amizade, até que finalmente ela é já tão intensa, tão vivida e tão cheia de luz e paz que se transforma no fundo naquilo que ela sempre foi um acto de amor, entre almas gémeas, que juntas riem, choram, gritam, refletem e ficam em silêncio quando é preciso…

Ter amigos é tão bom como estar enamorado e algumas vezes eles são tão (ou mais) importantes que a nossa família, por isso muito obrigada por estarem connosco mais uma vez e por serem nossos amigos!

Do fundo do coração..."

Regressar das trevas...


CrisSS

Pois é, cá estou de volta! Para os mais distraídos a minha ausência não foi notada, mas acredito que os meus fieis leitores (julgo que 3, eh, eh) devem ter dado pela minha falta...

 

Brincadeiras à parte estive realmente ausente, em espírito claro, pois não saí daqui, do nosso cantinho à beira mar plantado.

 

Tal como não sabemos o que nos faz afundar numa tristeza imensa, também não temos a certeza do porquê de um dia voltarmos a acordar com vontade de cantar, dançar ou apenas sorrir e abraçar aqueles de que mais gostamos...

 

Hoje em dia evito rótulos e tento não dar nomes às coisas que sejam definitivos, finais e irrevogáveis, por isso não me interessa muito nomear o meu estado de espírito dos últimos meses, mas acho importante reconhecer que algo se passou, que alguma coisa se ensombrou dentro de mim, e me roubou a energia e a alegria de viver.

 

Nesta altura devem estar a pensar - Eu não sabia!, Eu não notei nada! - e realmente a minha vida continuou como sempre, com as rotinas habituais e os compromissos cumpridos. Com algum custo...

 

As pessoas viram-me a rir, a trabalhar, a falar, mas algumas também me viram a chorar muitas vezes...

 

Mas o que vos quero dizer é que já não estou triste por causa desses momentos, é que agora sei que isso faz parte de viver, de crescer emocionalmente e que talvez seja mesmo necessário a certa altura da nossa vida sentirmo-nos assim para podermos olhar mais para dentro de nós próprios e procurarmos o que nos dói, e enfrentarmos o que nos está a fazer sofrer. E pode ser tanta coisa!

 

Eu, tal como muitos de vocês, tinha medo de parar e olhar para dentro de mim, tinha muito medo não tanto do que poderia encontrar, mas mais do que teria de aceitar. Sim, porque posso garantir-vos que é disso mesmo que se trata - de aceitar o que não podemos mudar!

 

Em primeiro lugar, tive que aceitar que a vida não é como nós queremos e que não posso controlar tudo!

 

Tive que aceitar que a minha família não é aquela que idealizei, que os meus pais também têm problemas e muitos assuntos por resolver, e principalmente tive que aceitar que não posso fazer nada para mudar isso!

 

Tive que aceitar que a minha vida profissional não teve o sucesso que eu imaginei, que o meu idealismo não se coaduna com a minha profissão atual e que a minha exigência e mania da perfeição só me farão infeliz no local de trabalho!

 

Tive que aceitar que a minha relação não é igual à dos filmes e que ser romântica é bom, mas viver a realidade que tenho e construir mais a cada dia é um caminho mais seguro para a felicidade a dois!

 

Tive que aceitar que os filhos são o que são e que as nossas ambições e sonhos para eles, não são mais do que isso - os nossos desejos - e não aquilo que eles querem ou aquilo para o qual eles estão mais vocacionados. E isso não significa que eles não sejam maravilhosos!

 

E, principalmente, tive que aceitar que não podemos viver sem cuidar do nosso lado espiritual e isso passa em primeiro lugar por enfrentarmos o nosso grande medo - a morte! Para aceitarmos que vamos de facto morrer, temos que ter alguma fé, alguma esperança, alguma intuição que nos tranquilize, que nos faça ficar em paz com essa ideia e que nos permita aproveitar este grande privilégio que é a vida. E posso dizer-vos que a partir do momento em que aceitamos a ideia da morte, tudo faz mais sentido e começamos realmente a viver e a estar no presente que é a única coisa que realmente importa.

 

O meu conselho é que procurem o que vos traz a paz interior. Acabem com as relações tóxicas, que só vos põem para baixo, terminem com as obrigações estéreis, que não acrescentam nada à vossa vida, explorem novos caminhos, reunam-se com novas pessoas que vos podem trazer luz e energia positiva para o vosso presente. Criem, usem, abusem de rituais de partilha, momentos de meditação, encontros de evasão, grupos de reflexão, pois nós não conseguimos viver sem esses rituais que sempre existiram ao longo dos séculos e nos permitem elevar acima do quotidiano, do vulgar, do terreno, se quiserem. Seja através da dança, seja através do riso, da música, do teatro, da simples tertúlia entre amigos, da caminhada, do silêncio, encontrem aquele espaço, aquele momento que é vosso e daqueles que estiverem a sentir o mesmo e que queiram partilhar convosco o desejo de paz.

 

Comecem já, não julguem que esta procura pode ser adiada, que é muito difícil e que não vão conseguir. Pois outra coisa que eu tive que aceitar é que ninguém é responsável pelo que nos acontece ou pela nossa vida - só nós é que nos podemos ajudar a nós próprios...

 

 

 

 

 

Vidas divididas: o dilema de ficar ou regressar


CrisSS

Todos nós já pensámos a dada altura das nossas vidas na possibilidade de emigrar, de sair do país, de ir à aventura. Claro que alguns de nós são mais aventureiros que outros ou estão mais desesperados, mas julgo que quase toda a gente já teve ânsias de sair daqui, de ir para longe, no fundo de começar uma nova vida!

 

Há quem diga que este desejo de sair do país faz parte da maneira de ser portuguesa e, de facto, desde sempre tivemos ao longo da história vagas sucessivas de emigração que foram mais ou menos acompanhando as nossas conquistas territoriais ou as nossas crises económicas.

 

Se somos um país de aventureiros, não sei, mas que somos um país de emigrantes é verdade. Talvez porque temos tanto mar e um país tão pequeno, ou talvez porque aqui não conseguimos levar a vida que sonhámos, lá vamos arriscando a sorte noutros países tão díspares, como a França já aqui ao lado ou a Austrália lá tão longe!

 

A minha ideia não é falar-vos da minha pretensa vontade de emigrar, pois eu própria não sei quais são os seus contornos, e às vezes acho que é uma vontade imaginária, utópica, um sonho eternamente adiado, que não encontra correspondência com os passos concretos que dou para o tornar numa realidade, e suspeito que o que se passa comigo também acontece a muitos de vós... A minha ideia é falar-vos um pouco do dilema de quem emigrou e vem a propósito de um belíssimo filme - "A Gaiola Dourada" - que aconselho a ver.

 

Ao contrário de outros, o filme não explora o drama da emigração de forma sofrida e angustiada, mas pelo contrário mostra-nos de forma muito simples e encantadora que a vida tem sempre os seus dilemas e a sua beleza, independentemente, de onde se está ou de onde se escolhe viver, e acima de tudo, torna evidente o que sabemos, mas às vezes preferimos esquecer, que é que viver se trata principalmente de fazer escolhas...

 

O filme retrata o dilema de uma família de emigrantes em França que tem de decidir se fica ou volta a Portugal. E que decisão! Não fazendo ideia nem de perto nem de longe o que é decidir algo deste tipo, senti um certa empatia com esta família, pois lembrei-me de familiares e amigos que vivem a mesma situação.

 

Quando se vai para outro país, salvo raras excepções, a ideia é sempre regressar, pois há qualquer coisa que nos chama de volta, as tais raízes, a tal herança familiar, a terra que se deixou, a família, as memórias, os amigos, ou algo tão simples como o bacalhau que é referência constante no filme de que vos falo.

 

Mas esse regresso que parece tão fácil, tão óbvio, não tem nada de simples. Como é que se volta e se deixa tudo o que se construiu? Como é que se regressa e se deixa os filhos para trás? Como é que chegamos à terra de origem e começamos uma nova vida, de novo? E isto depois de 20, 30, 40 anos...

 

Agora em agosto podemos encontrar em todo o nosso país estes emigrantes que voltam a Portugal ainda que apenas por algumas semanas adiando sabe-se lá para quando o regresso definitivo, para alguns eternamente adiado. E todos lhes perguntam para quando essa volta... E eles, sem saber o que responder, lá vão dizendo que está para breve, mas sabendo lá no fundo, que há um neto que vai nascer, ou que há um filho que vai casar, e que muito dificilmente conseguirão deixar a terra que os recebeu e que tem sido o seu lar durante tantos anos. Pois agora, é lá que estão os laços familiares mais fortes e é lá que se tem o trabalho e os amigos do quotidiano.

 

Ainda assim, para alimentar o sonho, muitos vão construindo a sua casa aqui e vão investindo na terra de origem as poupanças de uma vida. São as famosas casas dos emigrantes que jazem abandonadas durante todo o ano, ressurgindo para a vida no natal, na páscoa e no verão.  E tantas histórias eu já ouvi dessas casas que nunca chegam a ser habitadas pelos seus donos originais ou que só o foram por um curto período de tempo, já na velhice desses emigrantes finalmente regressados...

 

Pois, não deve ser fácil ser emigrante, e viver esta ambiguidade, no fundo esta dupla pertença a dois espaços, dois mundos diferentes, em permanente disputa de atenção e de ligação afetiva. São vidas divididas que não podem ser unidas e que obrigam os seus protagonistas a adiar uma escolha e, um dia, a ter de tomar uma decisão onde perdem sempre algo de precioso.

 

Mas não é de perda que nos fala o filme, é de mudança, é de surpresa, é no fundo das voltas que o mundo dá, para no final colocar tudo no seu lugar. É esta capacidade que a vida tem de nos surpreender que a faz maravilhosa e que nos leva a acreditar que por mais dolorosas que sejam as nossas escolhas elas abrem sempre portas para novas realidades. Por mais difíceis que sejam as nossas decisões elas são sempre as mais acertadas naquele momento e o universo se encarregará de nos mostrar isso.

 

Por isso meus amigos decidam, optem, façam escolhas! Não fiquem no impasse, na incerteza, na indefinição. Mesmo que doa, vai valer a pena, seja ela qual for a vossa escolha...

 

Memórias em dia cinzento...


CrisSS

Hoje estive todo o dia deprimida... Pensando bem não foi só hoje, ontem também já estava, e secalhar antes de ontem também, mas isso não interessa. O que interessa é que hoje precisei mesmo de voltar a alguma zona de conforto da minha infância, algum sítio onde eu me senti mesmo bem no passado, onde fui acarinhada, mimada, cuidada... E fui parar aos meus avós!

 

Todo o dia andei por lá em pensamento. Andei pela aquela casa, andei por aqueles momentos, lembrei as melhores recordações daqueles dias passados com o meu avô e a minha avó quando eu era uma menina pequenina.

 

Lembrei-me, principalmente, da minha avó, que era uma força da natureza, uma mulher de armas, um pouco dura, mas que cuidava de mim e da minha irmã com todo o carinho do mundo.

 

Lembro-me tão bem de cada vez que chegávamos àquela casa, entrarmos a correr pela cozinha e pararmos em frente à chaminé do fogão, à espera, e ela lá vinha e dizia "Sim, o menino Jesus deixou cá uns chocolatinhos para vocês!" e lá estavam os chocolates da Regina que marcaram para sempre a minha infância, pois os meus avós viviam ao pé da fábrica, no Alto de Sto. Amaro e o cheiro a chocolate era uma constante.

 

Lembro-me tão bem das manhãs, ao pequeno-almoço, quando a minha avó me tentava convencer a beber o leite em pó (que eu detestava) e por fim lá desistia e me ia fazer uma farinha maizena, com gema de ovo, que eu comia lambendo os beiços.

 

Lembro-me de estar à janela (era um r/c) e todas as vizinhas passarem para cumprimentar as netinhas da D. Belmira e lembro-me da varina aparecer à janela para vender o seu peixe que a minha avó comprava à janela especialmente para nós.

 

Lembro-me da minha avó a cantar fado, tinha uma voz lindíssima, todos diziam que parecia a Amália...

 

Lembro-me da minha avó me cortar a fruta para eu comer aos pedacinhos, com um garfinho, juntamente com a sopa que eu detestava!

 

Lembro-me de ela expulsar o meu avô da sua cama, nas noites em que dormíamos lá em casa, para que eu e a minha irmã lá coubessemos juntamente com ela, e ali ficávamos na risota a ouvir o relógio de cuco que não nos deixava adormecer.

 

Lembro-me dos passeios de elétrico para irmos ao Pastéis de Belém e de descermos até ao Calvário a pé a cumprimentar toda a gente e a entrar em todas as lojas.

 

Não pensem que a minha avó foi sempre muito feliz e uma felizarda com uma vida descansada. Da infância dela não sei muito, mas sei que passou por bastante depois de casada, pois o meu avô ficou com tuberculose pouco tempo depois de casar e esteve doente numa cama durante dezassete anos! Dezassete anos, esta senhora tratou do marido em casa, e por precaução não pode criar o próprio filho, que foi viver para casa de uma tia ali ao pé. Não sei, nem consigo imaginar, o que a minha avó sofreu, tudo porque ela passou, mas sei que apesar de tudo isso ela sempre teve uma força inabalável e quando o meu avô se curou e pode finalmente arranjar trabalho, ela foi também trabalhar para a Santa Casa da Misericórdia a cuidar dos outros, que foi o que ela sempre fez de melhor.

 

A minha avó só teve aquele filho e aquelas netas, que foram sem dúvida as pessoas mais importantes da sua vida, mas poderia ter tido mais se a vida lhe tivesse corrido doutra maneira.

 

A minha avó não teve uma vida fácil e mesmo assim conseguiu ser uma das pessoas mais importantes da minha infância, juntamente com o meu avô de quem eu tenho também inúmeras memórias, como as tardes na Tapada da Ajuda a apanhar pinhões que depois ele ia partir metodicamente num banquinho no quintal para nos dar a comer até enjoarmos!

 

O que mais me dói agora que volto a estas memórias é saber que no final não acompanhei a minha avó na sua doença, pois ela terminou os seus dias com arteroesclerose cerebral e não reconhecia ninguém. Não é essa a memória que eu quero ter da minha avó, pois aquela senhora que começou a perder a memória aos sessenta e poucos anos e que me confundia com o meu pai quando ele era pequenino é apenas uma sombra do que foi a minha avó... 

 

Sabes avó, eu era uma adolescente e não sabia o que era a vida, nem quão importante é nos darmos aos outros e retribuirmos aquilo que nos deram. No fundo resume-se tudo a isto: darmos aos outros o máximo de nós, todo o amor que temos, sem esperar retribuição, acho que isto é a essência da vida. E claro, perdoarmos! Perdoarmos aos outros e, principalmente, perdoarmo-nos a nós pelo que não fizemos ou pelo que fizemos mal...

 

Agora que já deixei de chorar e que o nó da garganta se desatou, finalmente, vou ali experimentar fazer uma receita da minha avó que nunca fiz: pastéis de massa tenra! É que faltou dizer-vos o mais importante: a minha avó gostava de cozinhar e eu também gosto muito!

 

Acho que saí a ela...

 

À minha maneira!


CrisSS

É muito difícil ser diferente! Em todos os sentidos, é claro, mas ainda é mais difícil ser diferente, sendo igual...

 

Quando nós temos algo que nos diferencia dos outros de forma inequívoca, que não é possível ocultar, como uma cor de pele diferente, uma deficiência, ou uma doença, a diferença é tão evidente que rapidamente interiorizamos a nossa condição de minorias e vamos criando mecanismos mais ou menos eficazes para lidarmos com essa condição.

 

Mas o problema é quando, aparentemente, nós somos iguais aos outros, mas na prática, no dia a dia, no quotidiano, parecemos estar sempre do outro lado, incompreendidos, difíceis de aceitar por todos aqueles com quem temos de interagir diariamente e nos mais variados contextos.

 

O problema é, também, quando queremos expressar uma ideia e as palavras que dizemos parecem ser ouvidas de forma completamente distinta pelos outros, provocando óbvias falhas no entendimento da mensagem que se pretendia transmitir.

 

O problema é, ainda, quando quase sempre as nossas ações não são interpretadas da melhor forma por aqueles a quem as mesmas se dirigem e se traduzem em reações inesperadas, muitas vezes até de rejeição.

 

Este é realmente o meu maior problema! Ser diferente! Não me encaixar na normalidade, não ser politicamente correta, dizer sempre o que penso e, principalmente, sem pensar! Out of the box como dizem os ingleses, ou melhor, em português, difícil de arrumar, de classificar, de posicionar num conjunto de referências pré-estabelecidas pelos padrões normais ou pelo status quo.

 

E ser assim é muito difícil... para o próprio, acima de tudo, e supostamente, para os outros que têm que lidar comigo e que são os ditos normais, certinhos, arrumadinhos, mainstream! São estes que habitualmente defendem as posições instituídas, protegem os seus pequenos poderes, zelam pela manutenção das tradições e são completamente avessos à mudança. São estes que por princípio odeiam os diferentes, como eu, os independentes, os que são impossíveis de controlar, imprevisíveis, aqueles que nunca se sabe o que vão fazer ou dizer a seguir e que parecem não obedecer a nenhum princípio que não seja o de fazer apenas o que lhes apetecer ou acharem justo ser feito naquele momento. Isto sou eu...

 

Já sofri muito por ser assim e já chorei muita lágrima de frustação por não ser aceite, por não ser compreendida e acima de tudo por não ser reconhecida nas minhas qualidades por causa desta maneira de ser. Mas ao longo destes anos tenho vindo a reconciliar-me com a minha diferença e tenho vindo aceitar que esta é a minha missão, o meu karma se quiserem.

 

Pensar diferente, questionar, inovar, querer sempre a mudança para melhor, ser idealista, ser utópica, acreditar que tudo é possível, estas são afinal as minhas qualidades e não os meus defeitos como me querem fazer crer. E não vou mudar! Porque já não conseguia mesmo que quisesse e porque não quero. Porque nunca vou aceitar que me digam que as coisas são assim porque são ou que não vale a pena fazer doutra maneira, pois eu vou sempre querer saber mais, fazer melhor, pensar diferente!

 

E sabem o que me deu força para aceitar que é assim que eu sou? O facto de cada vez mais ter a certeza que foi sempre por causa de pessoas diferentes como eu que o mundo avançou, que a humaninade evoluiu, que a ignorância e a mesquinhez foram combatidas e que a luz e o conhecimento foram alcançados!

 

Noutros tempos, não assim tão longuínquos, eu teria sido queimada na fogueira, juntamente com todos os doidos, os malucos, as bruxas, enfim os que fugiam à normalidade, os que não respeitavam as regras, os que questionavam o poder instalado.

 

Hoje a fogueira é diferente, mas também queima! Apesar disso, lá vou encontrando meia dúzia de malucos e diferentes como eu, que me vão segurando, que me vão ouvindo e que acreditam como eu que é possível mudar o mundo...

 

E juntos vamos conseguir, porque somos cada vez mais, acreditem!

 

 

Empatia versus indiferença


CrisSS

Ultimamente há uma ideia que tem sido recorrente na minha cabeça e me tem atormentado o espírito que é como descortinar a melhor forma de passar certos valores e princípios que para mim são fundamentais ao meu filho...

 

Muitos dizem que isso acontece naturalmente e que não precisamos de nos dedicar muito ao assunto. Já as ciências sociais defendem que é através do processo de socialização que durante a infância as crianças interiorizam a cultura e as normas e valores do seu contexto familiar, ou seja, através da imitação dos comportamentos dos pais. E outros ainda argumentam que não há muito que possamos fazer para assegurar que os nossos filhos se virão a desenvolver desta ou daquela maneira, pois a sua personalidade já está pré-definida à partida...

 

Eu, como socióloga, há uns anos atrás não teria dúvidas em acreditar que o meio social em que a criança se desenvolve é que determina todo o seu desenvolvimento futuro, mas agora, já com mais alguns anitos em cima, tenho vindo a conceder cada vez mais espaço à teoria de que há certas coisas que nascem connosco e ponto!

 

Quer isto dizer que me preocupa o facto de não conseguir ensinar ou transmitir certas coisas muito importantes ao meu filho (na minha opinião, claro) mas que definem como eu sou e que em momentos de baixa auto-estima até procuro valorizar como qualidades, já que outras me parecem faltar...

 

Uma dessas qualidades é a capacidade de se colocar no lugar do outro! Para mim, nos tempos actuais, esta é uma das qualidades, senão mesmo a qualidade mais importante, que um ser humano deve ter para viver em sociedade. Os psicólogos chamam-lhe empatia, embora essa ideia tenha mais a ver com a capacidade de ouvir o outro e de com ele estabelecer uma relação. Eu gosto mais do sentido antropológico dado a esta ideia que tem a ver com conseguirmos entrar na cultura do outro, vivendo da mesma forma, ou seja, colocando-nos na mesma situação, procurando ver o mundo pelos mesmos olhos.

 

Eu sei que dito assim parece muito difícil ou até mesmo impossível, e pior ainda, complicado de ensinar, pois parece ser uma característica que ou temos ou não temos, mas eu quero acreditar que haja alguma maneira de ser possível ensinar alguém a colocar-se no lugar do outro. É que isso é tão importante...

 

Se todos tivéssemos essa capacidade as guerras não aconteciam, os conflitos não existiam, a pobreza diminuiria, a natureza não seria destruída, e por aí a fora, pois todos antes de agir pensariam nas consequências dos seus actos para os outros, porque conseguiriam antes imaginar o que lhes aconteceria e pensar que poderiam ser eles a estar nessa mesma situação.

 

Se todos se conseguissem colocar no lugar do outro ainda que apenas por breves momentos teriam dificuldade em aceitar que houvesse desemprego, que houvesse crianças a morrer à fome, que houvesse idosos a morrer sozinhos sem assistência médica, que houvesse famílias sem casa, pois o seu sofrimento poderia ser deles também um dia e ninguém gostaria de estar numa situação como essas.

 

Mas a grande mais valia desta capacidade ou qualidade do ser humano se colocar no lugar do outro é ser a melhor forma de combater a indiferença, que por contraposição é, para mim, o pior mal da nossa sociedade. Quem se coloca no lugar do outro não consegue ficar indiferente ao que o outro está a passar e ao que o rodeia... sofre com o mal dos outros, tenta ajudar e luta por soluções. E a indiferença tem que ser combatida de todas as formas possíveis e imaginárias!

 

E aqui surge alguma esperança em relação à questão que me preocupa: ensinar a não ser indiferente já me parece ser mais fácil! Se eu ensinar o meu filho a não ficar indiferente ao sofrimento dos outros, a tentar sempre perceber o que o outro está a sentir, a procurar ajudar como lhe for possível, a não voltar a costas quando vir algo que o incomoda, isso é de certa forma ensinar-lhe a colocar-se no lugar do outro e essa será a minha meta!

 

Sim, meus amigos e amigas, porque acreditem, o futuro dos nossos filhos só estará garantido se lhes conseguirmos ensinar a não serem indiferentes ao que se passa à sua volta, se os conseguirmos fazer compreender que o que se passa com o outro também lhes diz respeito, no fundo, se os conseguirmos fazer acreditar que podem fazer a diferença...

 

E que são eles o motor da mudança!

 

 

A loucura da normalidade


CrisSS

Aqui há uns dias vi um filme que aconselho. Mas não pensem que é um daqueles filmes com um argumento fantástico e representações de óscar. Não, não é esse o caso. É apenas um filme que aborda de forma simples um tema que me é muito caro e que me preocupa bastante atualmente: o tema da saúde mental, ou dito de outra forma, o tema do equilíbrio psicológico frágil que caracteriza todos os seres humanos, sejam homens ou mulheres.

 

O filme em questão chama-se (em português) - "Guia para um final feliz" - e é este título a sua principal fragilidade, mas que eu percebo, pois é importante deixar no final uma mensagem de esperança, ou se quiserem, de possível retorno à normalidade. Mas de que trata afinal o filme? O filme fala-nos de um homem que depois de um episódio triste no seu casamento, acaba não só divorciado mas também internado numa instituição para doentes mentais durante algum tempo. Uma daquelas clínicas à americana (cá não temos nada daquilo, ou se temos é só para uma elite e eu desconheço) para onde as pessoas vão recuperar dos momentos mais ou menos difíceis porque passam na vida: mortes, divórcios, doenças graves, dependências várias, depressões, etc...

 

E porque vos estou a falar disto? Porque me preocupa o elevado número de pessoas que eu vejo à minha volta que estão a sofrer, porque a dada altura algo se quebrou dentro delas e parece não ser possível de consertar... Falo das pessoas que conheço e que estão deprimidas, ou têm ataques de pânico, ou vivem com insónias, tonturas e vertigens, ou não conseguem comer, ou comem demais, e que acabam por se sentir desesperadas, diminuídas e ocultam a sua fragilidade, o seu desequilíbrio, como se fosse vergonhoso não estar feliz, não estar bem, não ser "normal"!

 

E depois, durante um jantar, ou na fila de espera de um consultório, ou noutro momento qualquer, de repente desabafam, não aguentam mais, e dizem que estão há não sei quanto tempo a tomar anti-depressivos, que já foram ao psicólogo e que já não sabem o que mais hão-de fazer para que tudo volte a ser como antes, para que voltem a estar "normais".

 

Mas o que é isto da normalidade? Estarão todas as outras pessoas equilibradas e em perfeita sintonia com o mundo e com os outros? Não me parece e acho que esta ideia do equilíbrio psicológico permanente, do estar a 100%, é mais um mito do que uma realidade. Porque a maioria das pessoas que conheço não está a 100% e podem até aparentar uma alegria de viver e um aparente bem-estar, que na prática não sentem e à noite, quando estão sozinhas, sofrem, tal como os já catalogados de depressivos, psicóticos, neuróticos e desequilibrados em geral!

 

No fundo, o que eu quero dizer é que todos nós, principalmente, os mais sensíveis, ou aqueles que tiveram algum tipo de abandono ou negligência na infância, ou simplesmente aqueles que passaram por uma dor ou emoção profunda, sabem o que é não estar a 100% e tentam viver com isso da melhor forma possível...

 

Que a vida não é fácil, já nós sabemos, mas passar por certas situações, sem ajuda, sem amigos, sem família e, na maioria dos casos por dificuldades de acesso, sem apoio de um especialista, tem custos que às vezes não calculamos seriamente e que desvalorizamos, fazendo com que muitos destes desequilíbrios passem de temporários a permanentes!

 

E é aqui que este filme me comoveu, porque mostra de forma muito bonita que é possível ultrapassar uma crise destas, com ajuda de fontes tão variadas como a família, os velhos amigos, o parceiro de doença, o psicólogo e claro novos amigos, ou melhor novas pessoas que aparecem na nossa vida e que se nós conseguirmos estar atentos e abrir-lhes a porta do nosso coração podem fazer a diferença e ajudar-nos a alcançar o tal "final feliz"...

 

Mas, atenção, o final feliz pode não ser o desejado "voltar à normalidade"! Como verão no filme, pode ser uma coisa nova, completamente diferente, pode ser descobrir em nós emoções que nem suspeitávamos, abandonar obcessões antigas, encontrar capacidades escondidas, demonstrar sentimentos e fazer coisas que nunca fizemos! Viver a vida de forma diferente e principalmente aceitar que nunca mais vamos estar a 100%, se é que alguma vez estivemos...

 

Falo por mim, eu cá acho que estou para aí a 70% e isto nos meus melhores dias!

O tabu intemporal


CrisSS

Acho que nunca se falou tanto de sexo como nos nossos dias e paradoxalmente para a maioria das pessoas este assunto ainda continua a ser um tabu! Todos os dias me deparo com situações, conversas, relatos nos quais concluo que as pessoas - homens e mulheres - não falam sobre sexo! E principalmente, os membros do casal não falam um com o outro...

 

Vem isto a propósito, por exemplo, do livro "As cinquenta sombras de Grey" e de toda a panóplia de comentários que eu já ouvi sobre o mesmo, que eu ainda não li, mas que faço questão de ler assim que puder! Desde mulheres que lêem o livro às escondidas dos homens até mulheres que lêem o livro às escondidas de todos, passando por mulheres que o leram e dizem que não o fizeram, já vi e ouvi de tudo. Há semanas atrás estava eu à espera no consultório do dentista e ouvi a conversa das recepcionistas sobre o dito livro, em que uma dizia que o lia no metro, mas tinha uma daquelas capinhas de livros para ninguém ver o que ela estava a ler!

 

E é assim que se trata o tema do sexo neste país, apesar de aparentemente ele ser bem visível no domínio público e nos media, parece que no domínio privado a coisa não é bem assim. O tema está embutido, encapotado, latente, mas nunca se torna visível, presente, palpável, nos discursos e nas vidas quotidianas. Evita-se falar de sexo, no casal, na família, entre amigos, mas pode-se ver filmes, ler livros, ver revistas sob o mesmo, até ir às sex- shops, desde que às escondidas...

 

Não digo que o sexo não seja um assunto privado entre duas pessoas (ou mais se assim o entenderem), mas o que eu quero dizer é que não acho aceitável nos dias de hoje uma mãe de trinta e poucos anos me afirmar horrorizada que a filha na escola no 3º ano tinha aprendido o aparelho reprodutor e estava a fazer perguntas às quais ela não queria responder, inclusive afirmando que a professora é que devia responder já que lhe estava a falar no assunto! Que isto se passasse na geração da minha mãe eu ainda compreendia, mas em pleno século XXI?

 

Não conseguirá uma mulher de 30 e poucos anos ter à vontade para falar de sexualidade com a própria filha? Então e com o marido, que comunicação existirá? Nenhuma acho eu, porque isto é mais um exemplo de que o sexo ainda continua a ser um tabu para muito boa gente.

 

Assim, não me surpreende que os relatórios da OMS ainda apresentem percentagens elevadíssimas de mulheres que não conseguem ter orgasmos ou viver em pleno a sua sexualidade, como também não me surpreende que os estudos sobre o divórcio concluam que só depois do dito é que os casais se apercebem de que não tinha uma sexualidade satisfatória para nenhum dos seus membros...

 

É aflitivo que não consigamos encarar como normal falar de uma das coisas mais naturais que ocupa os seres humanos e que é também uma da áreas fundamentais para o equilíbrio psicológico e emocional da maioria dos homens e mulheres.

 

E porque é que eu defendo que se deve falar sobre o assunto à revelia da maior parte das pessoas que defende que hoje em dia com a internet e a televisão toda a gente já sabe tudo sobre o tema da sexualidade? Pois eu acho que é precisamente por essa razão, porque se fala de mais sobre o tema e nem sempre de forma acertada.

 

Na internet o que os jovens aprendem é pornografia, não é lá que eles irão compreender que o sexo com afeto ou amor é muito diferente e mais interessante, para além de que ver sexo ou ler sobre sexo não é o mesmo do que falar com a namorada, amigos, pais ou alguém de confiança sobre o que se sente, o que lhes dá prazer, as dúvidas que têm.

 

Nas revistas, televisão e livros promove-se o sexo sem tabus, ou seja, defende-se todo o tipo de práticas sexuais, partindo do princípio de que todos os homens e mulheres devem ter sexo oral, sexo anal, sexo em grupo e usar brinquedos sexuais, o que deixa a maior parte das mulheres com sentimentos de frustação e culpa caso não sejam adeptas de todas essas variantes e os homens a pensar que por azar lhes calhou a única mulher que não alinha com o que é comum.

 

E muitos mais exemplos poderia dar da falta que faz falar realmente sobre sexo, comunicar com outros sobre o tema, sem preconceitos, sem medos, sem embaraços. Esta conversa pode e deve ser com o companheiro ou companheira, entre amigas, com a mãe, com o pai, com o médico, com a colega de trabalho e até com o especialista se sentir essa necessidade, desde que fale sobre o assunto...

 

Porque só falando sobre sexo, se conhece as necessidades que se tem, se conhece melhor o seu corpo, se conhece melhor o corpo do outro e as suas necessidades, ou seja, só assim se conseguirá viver a sexualidade de forma plena e com o prazer que lhe é merecido!

 

Sim, porque minhas amigas e amigos, como ouvi no outro dia dizer a um especialista na rádio : "Casamento sem sexo, não é casamento, é amizade!"

 

PS: Não se esqueçam de por já hoje a conversa em dia...

 

 

 

A arte de não fazer nada


CrisSS

Mais uma vez a dificuldade de gestão do tempo me ocupa o pensamento e me obriga a refletir. Há uns meses atrás estava com uma amiga a queixarmo-nos a esse respeito e tal como já vos falei aqui, concluimos que este não é um problema que nos aflija só a nós mulheres, mas sim a quase toda a gente que conhecemos...  

 

É dificil gerir o tempo de que dispomos e conciliar todas as áreas da nossa vida - pessoal, familiar, lazer, trabalho, hobbies, etc - e inevitavelmente o tempo pessoal é aquele que fica mais esquecido. E esse é o mais precioso!

 

Lá vamos arranjando tempo para aquele trabalho a mais que o chefe pede, para ir com os filhos às inúmeras atividades, para estar com o marido e demais família, mas deixamos de lado a ida ao ginásio que pagamos sem lá por os pés, a caminhada que decidimos passar a fazer todos os dias, o voluntariado que prometemos fazer, o jantarinho mensal com as amigas que combinámos, a simples leitura do romance que nos ofereceram no último aniversário... Todas estas coisas e muitas outras que intimamente gostávamos de fazer, não chegam nunca a concretizar-se, pois não conseguimos ter tempo para elas.

 

Todos os anos fazemos promessas de ano novo que juramos cumprir e, se pensarem nisso, essas promessas têm sempre a ver com tempo pessoal, com iniciativas que implicam que nos dediquemos mais a nós como pessoas, que signifiquem passarmos mais tempo a olhar para dentro de nós, a conhecermo-nos e a aprendermos a gostar do que vemos. E isso é muito importante, e infelizmente é essa parte de nós que esquecemos e que deliberadamente deixamos para trás...

 

O problema é que se não arranjarmos tempo para nós, mais cedo ou mais tarde, também vamos deixar de ter tempo para os outros. Esse tempo pessoal é fundamental para o nosso equilíbrio, para nos manter saudáveis, para impedir que o nosso vazio interior cresça e ocupe todo o nosso ser. Nós precisamos de nos alimentar dessas atividades especiais, que nos dão prazer, que nos fazem sentir melhor e nos permitem ter disponibilidade e energia para os outros e para nos dedicarmos às restantes tarefas que temos diariamente.

 

Quantas vezes repararam que depois de sair de uma aula no ginásio, ou depois de sair com uma amiga para conversar, ou simplesmente depois de terem estado a ouvir a vossa música preferida num banho de imersão, estão muito mais pacientes e disponíveis para filhos, marido, mãe, sogra e o que for que aí vier!

 

Mas, devem estar a pensar, como raio é que nós havemos de conseguir ter esse tempo para nós? Quanto a mim, a solução que me ocorre passa por duas coisas que temos de passar a fazer: delegar nos outros e perder a mania de controlar tudo. Aqui está a chave para conseguirmos ter mais tempo disponível para o que nos dá realmente prazer.

 

Falo por mim, pois quem me conhece sabe que gosto de ter tudo sob controlo, mas sei que há por aí mais como eu! Principalmente, nós mulheres, temos de perder a mania de que somos super-mulheres. Temos que assumir duma vez por todas que não há mal nenhum em ter a casa desarrumada, em não ter um cargo de chefia na empresa (principalmente, se isso implicar que nem tempo temos para ir ao cabeleireiro), em convidar os amigos e servir-lhes frangos assados, em dizer aos sogros que não podem vir todos os fins-de-semana almoçar ou em dizer ao marido que não há cuecas lavadas na gaveta. Temos pena, como dizem os miúdos! Se quiserem façam e mesmo que não queiram é assim que tem de ser, pois acabou a nossa disponibilidade para ser pau para todo o serviço...

 

Por isso há que distribuir tarefas, renegociar acordos de partilha de responsabilidades, rever horários e funções atribuídas no local de trabalho, ajustar rotinas domésticas e acima de tudo por o coração ao largo e nem olhar para as limpezas que ficaram mal feitas pelo marido (só nós é que vemos isso), para a colega de trabalho que está em grande protagonismo (mas o filho é vítima de bullying e ela nem percebeu), para as amigas que fazem festas com grandes banquetes (mas nem querem saber de fazer amor com os maridos). Esqueçam tudo isso e pensem só no tempo livre que vão ter, na disponibilidade mental com que vão ficar para muitas outras coisas e na energia que vão acumular para serem mais saudáveis, mais equilibradas e, acima de tudo, mais felizes!

 

Pois é, temos que resgatar o nosso tempo pessoal e 2013 é o ano para isso! Nem que seja para nos dedicarmos ao ócio, que como definia um autor espanhol que li em tempos, é simplesmente a arte de não fazer nada...