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auto-terapia



Quarta-feira, 08.07.15

Não mata, mas mói...

Por estes dias fechei mais um ciclo da minha vida, profissional sim, mas também pessoal, porque quer queiramos ou não as duas dimensões estão ligadas... Por conta desse projeto em que andei envolvida não tive tempo para muitas outras coisas, nomeadamente para escrever neste meu blog. E agora aqui estou outra vez a escrever sobre o que estou a sentir, tal como me aconselhou um terapeuta a quem recorri a certa altura da minha vida.

Como todos aqueles de nós, que andam à procura de alguma forma de evoluir como seres humanos aqui nesta existência terrena, também eu tenho procurado aceitar o que a vida me dá e viver em harmonia com o que tenho, e tenho de reconhecer que é bem mais do que têm a maioria das pessoas.

Mas não sou perfeita e de facto ainda não atingi a iluminação, pelo que me doem certas coisas que me continuam a acontecer, as quais eu acho que vou ter sempre alguma dificuldade em aceitar.

Durante o último ano e meio trabalhei num projeto financiado pela comunidade europeia, não interessam aqui os detalhes do mesmo, mas foi um daqueles projetos que veio parar ao meu serviço um pouco por acaso e à revelia da agenda política dos meus dirigentes e que por essa razão não recolheu especial atenção, para não dizer que de facto ninguém teve realmente muito interesse em o desenvolver. Mas lá se criou uma equipa, na qual eu fui incluída, e lá se começou a ver o que era preciso fazer...

A dada altura do processo lá tive que puxar uns galões e passei a ser a gestora do dito projeto, mas tudo muito arrancado a ferros, como é quase tudo na minha vida! Por força deste contexto de algum desinteresse pelo projeto lá consegui trabalhar com alguma autonomia e juntamente com um investigador que foi contratado para o trabalho de campo lá conseguimos desenvolver o plano de atividades previsto, estabelecer uma série de parcerias e criar uma relação de confiança com a coordenação europeia do projeto. Passámos por dificuldades com os procedimentos administrativos e o acesso ao orçamento, não tivemos qualquer apoio político e ainda tivemos que gerir conflitos internos à equipa e mediar relações institucionais, mas no final conseguimos desenvolver um bom projeto e tivemos uma excelente avaliação por parte da comunidade europeia.

Falo-vos disto porque foram realmente 18 meses muito intensos em que trabalhei com gosto e motivada e ao longo dos quais senti que o meu trabalho fazia sentido e que as minhas capacidades e qualidades eram aproveitadas. Foi um período de novas experiências e aprendizagens, ao longo do qual conheci muitas pessoas e tive oportunidade de comunicar de formas muito diversas e de refletir sobre questões essenciais para as nossas sociedades atuais. E foi também um contexto especial em que eu consegui ter algum feedback sobre o trabalho que desenvolvo quotidianamente e sentir que estava a contribuir para algo maior com o meu esforço e dedicação, e principalmente ter algum reconhecimento e valorização do que foi realizado, ainda que não internamente...

Não digo que tenha feito um trabalho excecional de acordo com os padrões de produtividade na gestão de empresas privadas de renome com enormes resultados ou até que tenha sido a primeira vez que eu tenha realizado um trabalho gratificante e importante para a comunidade, mas foi mais uma vez em que eu soube que era possível trabalhar motivada e com objetivos e metas claras a atingir e essencialmente num contexto em que se valoriza e reconhece o trabalho que foi desenvolvido e é isto que faz a diferença!

Podem dizer-me que nesta altura do campeonato já me devia ter habituado a não ser motivada profissionalmente ou a não ter reconhecimento profissional, mas parece que não me habituo... Talvez a culpa seja daquelas teorias todas de gestão da motivação, da liderança positiva e da psicologia motivacional que li quando andava a estudar ou seja do facto de diariamente lidar com empresas jovens onde a equipa é o mais importante e a liderança é eficaz na definição de metas e na orientação e reconhecimento do valor de cada um para o resultado final, mas o que é certo é que me custa esta indiferença e este assumir que:"não fez mais do que a obrigação", ou "é para isso que lhe pagamos" ou "tem sorte em ter emprego, de que se queixa?"

E o pior é que, neste contexto de ausência de liderança e de não definição de novos objetivos, para aqui vamos andar todos, como é habitual, a rivalizarmos, a pisarmo-nos uns aos outros para tentar chegar à confiança dos dirigentes, a lutarmos por uma migalhinha de atenção e de reconhecimento, na esperança de uma oportunidade de podermos utilizar as nossas capacidades e evoluirmos profissionalmente, a competirmos por um novo projeto ou apenas por uma tarefa mais aliciante, no fundo quais animais numa selva agreste a lutar por um bocado de comida... Meus amigos, é isto que se sente a trabalhar na administração pública ao fim de muitos anos e nem falo da questão da progressão na carreira, pois essa está dependente da variável sermos ou não da confiança política de quem decide. 

E é para isto que eu volto agora que acabou o meu projeto...

A dada altura o colega de fora com quem trabalhei dizia-me que se estava a perder uma boa investigadora e eu em tempos também pensei nisso, mas acho que não, porque apesar de eu gostar de ler e escrever e de a aquisição de conhecimento ser para mim um dos maiores valores, não tanto para a inovação tecnológica, mas sim para formar cidadãos no caminho para um mundo mais tolerante, igualitário e de justiça social para todos, o que eu quero mesmo é comunicar, é trabalhar para os outros, é ajudar no que for preciso, é estar lá para fazer e sentir que o que eu faço contribui para mudar alguma coisa.

Por isso vou continuar aqui na minha luta e vou esperar por um novo ciclo, ou até criar um novo projeto, pois apesar de moer, ainda não me mataram...

 

PS: E obrigada André por teres sido a única pessoa, para além dos nossos parceiros, que me fez sentir que valeu a pena!

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 09:19


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