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auto-terapia



Segunda-feira, 29.12.14

No rescaldo do Natal...

Aqui estou eu no rescaldo de mais um natal, entre mortos e feridos, lá me salvei mais uma vez, mas as cicatrizes são grandes e a vontade de desistir é cada vez maior...

Perguntam vocês: mas desistir do quê? Do natal? E atónitos, relembram-me que há uns dias atrás estava eu tão entusiamada, a publicar fotos da minha árvore e presépio no facebook e até a fazer postais de natal digitais para enviar aos colegas! Então, mas o que aconteceu? O que mudou entretanto?

De facto, não aconteceu nada que não seja habitual, nada que não seja normal na minha vida, isto é, apesar do meu entusiamo acerca desta época natalícia, tudo parece concorrer para que esta data seja apenas o momento costumeiro de expetativas defraudadas e tensão familiar...

Eu gosto do natal, realmente gosto, e não me caiam em cima aqueles que acham que o natal já não é o que era, que se transformou numa loucura consumista, que é um período de egoísmo em que para nos sentirmos melhor com a nossa consciência resolvemos ser solidários, que o natal deve ser todos os dias e etc, etc. Eu não enfio essa carapuça, pois não consumo em excesso no natal (a não ser doces, é óbvio!), sou solidária sempre que posso ao longo do ano e não especialmente no natal, e o meu natal é sempre o que era, porque insisto em preservar as minhas tradições contra tudo e contra todos! Porque o natal para mim é isso mesmo: um ritual de partilha e de convívio. E na minha modesta opinião os rituais fazem falta na nossa vida dita moderna e são algo que eu gosto de cultivar e manter.

Os rituais fazem falta porque nos obrigam a parar para refletir e organizar as emoções, por um lado, e por outro lado, porque nos fazem elevar o espírito acima do quotidiano, celebrando a existência com aqueles que nos são mais próximos, de preferência em alegria e comunhão.

Desde sempre a humanidade sentiu necessidade de ter rituais e acreditem foram eles, também, que nos ajudaram a distinguir dos animais e a formar uma consciência coletiva que deu origem a sociedades cada vez mais complexas e à civilização como nós a conhecemos hoje. Esses rituais podem ser coisas tão simples como elaborar um presépio ou enfeitar a árvore de natal ou algo muito mais elaborado como juntar um grupo de pessoas num determinado local especial e em conjunto juntarem energias, pensamentos e ações com um objetivo comum, seja ele a paz espiritual ou a festa pura e simples.

Estes rituais fazem-nos falta, pois permitem-nos reunir afetos e sentimentos à volta de um tema que nos importa e que é significativo para nós e, principalmente, porque são momentos de partilha coletiva, de construção de comunidade e de sentimento de pertença a algo maior, algo que nos transcende e que nos eleva!

Por tudo isto o natal é para mim importante, pois é um desses momentos rituais e é como tal que eu o identifico. Para mim o natal é um ritual que nos mobiliza a todos e que pode ser um desses momentos raros em que nos sentimos maiores, mais dignos, mais em paz connosco e com os outros.

Mas o pior é quando não é...

E depois da expetativa estar criada é muito difícil aceitar que não seja, mas podem ser tantas as razões para o natal não ser tudo aquilo que esperamos. Tantas coisas se jogam nesses dias, tantos imprevistos podem acontecer... Estou a lembrar-me da pessoa que está sozinha na vida, do familiar que adoeceu e está ausente, da amiga que está longe do país, do filho que este ano passa o natal com a família do pai, das famílias que não têm dinheiro para a ceia de natal, dos pais e avós que partiram e já não estão entre nós e dos membros da família que aproveitam este dia para expor todo o seu mal-estar e reivindicar tudo o que não conseguiram viver nos anos que passaram, sem se darem conta dos outros que fazem parte das suas vidas e que queriam viver o natal em harmonia.

Perante este cenário podemos fazer o exercício de pensar que a vida é assim e aceitar que nem tudo é como nós queremos, mas fica sempre uma pequena mágoa, porque não somos perfeitos e porque desejámos que este fosse um natal de paz, harmonia, alegria, amor e acima de tudo compaixão...

Talvez seja assim que eu me consiga reconciliar com o meu natal e pensar que tenho que transformar a memória deste meu ritual, num processo de compaixão e perdão, bem dentro do espírito desta época e mais uma vez aceitar que não posso mudar o passado, nem as pessoas que são a minha família e que em vez de me zangar por isso, tenho que ficar contente pelas outras pessoas que tenho, família e amigos e que fazem parte do meu círculo afetivo e com as quais posso e devo reeditar rituais passados e construir também novos, porque não?

Pois é isso mesmo que vou fazer, repensar o meu natal, e não esquecendo as minhas tradições e aquilo que me conforta, encontrar um novo caminho para o meu ritual, onde os imprevistos existem, é claro, mas acima de tudo a partilha e a comunhão de ideias entre pessoas que querem mesmo estar juntas em paz e harmonia é o principal elemento a celebrar!

E tem mesmo que ser assim, pois tenho um filho que precisa de ter um verdadeiro ritual para perpetuar no futuro...

 

 

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 14:31


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