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auto-terapia



Segunda-feira, 06.08.12

Entre o rural e o urbano

Gosto do campo! Gosto mesmo do campo a sério, do mundo rural, da província, da agricultura, dos camponeses, ou seja, não estou a falar de um resort ecológico no Alentejo (de que também gosto, é claro), mas da terra, das árvores, das montanhas, dos rios, das casas de pedra, das vacas, das ovelhas e dos burros. Gosto das aldeias recônditas do nosso país, quase desertas e de encontrar velhotes, quase com 100 anos, com quem invariavelmente acabo por falar, a tentar desvendar o passado do que foi aquele lugar...

 

Para este meu gosto deve ter contribuído o facto de ter raízes no campo e ter na minha árvore geneológica vários parentes que passaram a sua vida no mundo rural, o que teve como consequência que parte das minhas férias da infância tivessem sido passadas nesse campo agora tão distante! Mas este meu gosto vai para além dessas memórias e desse imaginário rural infantil, pois sinto-me bem em qualquer paisagem rural e ainda me lembro do quanto fiquei comovida aos vinte e poucos anos quando na ilha Terceira, nos Açores, vi o verde dos vales cultivados e a força daquela paisagem rural.

 

Preciso de, de tempos a tempos, me enfiar na estrada, avançar para Norte e sentir a emoção de estar a caminhar para um território conhecido, familiar: o verde das árvores, as pedras na terra, as montanhas, os rios... Lentamente, começo a sentir-me em paz e a achar que finalmente estou em casa.

 

Não tenho ilusões sobre o que é a vida no campo, pois felizmente, tenho ainda muitos familiares na província que me permitem ter sempre presentes as dificuldades dessa vida de futuro incerto, principalmente, para quem não teve oportunidade de aceder a um nível de vida mais favorecido e se manteve ligado a uma agricultura de subsistência e a períodos de imigração mais ou menos prolongados. Mais uma vez a educação é a principal arma para se conseguir qualidade de vida, quer seja no campo, quer seja na cidade, e o investimento na mesma tem sido sempre menor nas áreas rurais do país. Já para não falar nos outros tipos de investimento...

 

Mesmo assim, acho que é possível viver bem no campo e ter uma qualidade de vida muito superior à que se tem nas cidades. Acho que podemos testar outros modos de vida, menos dependentes do consumo e das necessidades criadas pela vida urbana e ainda assim viver com o conforto a que estamos habituados em meio urbano. No fundo, acho que se pode levar uma vida muito mais sustentável, mais baseada em energias alternativas, em produtos biológicos, com maior prática ecológica e com grande respeito pela natureza...

 

Mas então porque é que não me mudo? Porque é que não vou viver para o campo? Porque me encontro numa encruzilhada entre o rural e o urbano! Porque também gosto das cidades, das suas zonas históricas, da arquitectura moderna das zonas novas, da inovação tecnológica, de lugares trendy e fashion, de museus de arte, de design, de casas clean, de restaurantes internacionais, enfim de coisas bonitas criadas pelo homem com a sua criatividade!

 

Por isso vou confessar-vos um segredo: acho que o que eu gosto mesmo é da beleza, de poder contemplar o belo em todas as suas formas, independentemente de ter sido o homem ou a natureza a criá-lo!

 

Se pudesse juntar as duas coisas, não tenham dúvidas, já me teria mudado e estaria agora na minha casa fantástica completamente sustentável - de preferência desenhada pelo Souto Moura - toda com energias alternativas, com uma horta biológica, um jardim e uma estufa de orquídeas (sou maluca por elas), onde tudo era reciclável, desde a água da piscina até aos resíduos que seriam para compostagem e, claro, animais ao ar livre, galinhas, patos, cabras anãs, burros (tenho que ter um!) com pequenas casas desenhadas especificamente para eles se abrigarem à noite!

 

Um paraíso ecológico, onde o design estaria presente em tudo e onde o melhor do engenho e da criatividade humana teria sempre lugar em perfeita sintonia com a natureza e os seus elementos... Este seria o meu lugar no campo, para onde eu poderia levar tudo o que de melhor a tecnologia e a ciência têm para oferecer de modo a criar o completo equilíbrio entre o homem e a natureza!

 

Sei que isto é uma utopia, mas acho que todos deveríamos viver assim seja no campo ou na cidade! Quanto a mim ou me sai o euromilhões ou já não será nesta vida que vou realizar o meu sonho...

 

Mas talvez um dia me mude mesmo, quando perceber que afinal tudo isto não é assim tão importante e que basta sentirmo-nos em paz para qualquer lugar ser aquele onde faz sentido nós estarmos! Enfim, talvez um dia me mude por dentro...

 

 

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por CrisSS às 15:53

Sexta-feira, 03.08.12

Namorar é preciso!

Ontem, fui ver, com o meu amor, "Romeu e Julieta", na Quinta da Regaleira! O que poderia ser mais romântico do que ver Shakespeare, num cenário idílico, em Sintra, numa noite com um luar esplendoroso...

 

Pois foi assim a nossa noite e ainda tivemos direito a um jantar bastante simples, num barzinho intimista, onde passavam as nossas músicas preferidas de James!

 

Claro que isto só foi possível porque o nosso querido filhote estava ausente com seus avós e nós pudemos ter direito a uns saudáveis momentos apenas a dois.

 

Serve esta introdução para vos dizer, aquilo que todos os especialistas matrimoniais também aconselham: os casais devem continuar a namorar!

 

Mas, eu também sei, uma coisa é dizer outra coisa é fazer... Desde logo, porque muitos de nós não temos familiares disponíveis ou dinheiro para contratar baby-sitters, mas principalmente, porque não temos bem a certeza se conseguimos estar bem e felizes afastados dos nossos rebentos que adoramos e que fazem parte de nós quase como um braço ou uma perna!

 

Eu não escapo a esta dúvida tal como muitos pais que conheço. E vejo de tudo: casais que têm a sua saída semanal, outros que têm o seu fim de semana mensal, os que têm a sua viagem ao estrangeiro anual e muitos, talvez a maioria, que nem sequer se lembram da última vez que foram ao cinema a dois!

 

Eu sei que é difícil, que a rotina se instala, que os filhos dominam o nosso quotidiano e que realmente quando não estamos com eles sentimos a sua falta, mas temos que fazer um esforço, não só por nós, mas por eles também. Porque esta separação os ajuda de várias formas: promove a  sua autonomia e independência, permite-lhes estabelecer relações com os outros, aprendem a lidar com a ausência e a falta de alguém e, principalmente, vêm os seus pais noutro registo, não só de provedores e cuidadores, mas de homens e mulheres com desejos, fantasias, emoções amorosas, tudo coisas muito importantes que também fazem parte da vida desses adultos com quem eles vivem diariamente. No fundo, os nossos filhos quando nos vêm a namorar aprendem eles próprios a importância de amar o outro, de fazer crescer o amor com pequenos nadas, como um jantar romântico, à luz das velas ou um beijo cinematográfico! Acho que quando continuamos a namorar estamos a ensinar aos nossos filhos a cuidar de uma relação e a lutar por um amor...

 

Posto isto amigos: namorem! Muito! Ou quando der... Aproveitem todos os pequenos momentos para darem um novo élan à vossa relação, ao vosso casamento de 1, de 5, de 10, de 20 anos, o que for. Chateiem a família, os amigos, os vizinhos, quem estiver disponível para ficar com os miúdos, mas vão, ou fiquem, se forem eles a sair, porque também se namora muito bem, "sózinhos em casa"!

 

Áh e já me esquecia de vos contar, ontem até tivemos direito a ver uma estrela cadente! Digam lá, se não é a prova, provada, de que a nossa escapadela foi bem abençoada...

 

 

 

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por CrisSS às 11:54

Quarta-feira, 01.08.12

A dificuldade de se ser funcionário público

Sei que não vou ser consensual, sei que me vão criticar, mas tenho que escrever sobre esta imensa dificuldade que é ser-se funcionário público!

 

Já estou a ver e a ouvir as vozes a levantarem-se contra mim e meio mundo a pensar:"Claro, ela é funcionária pública tem que os defender"...

 

Não tencionava escrever tão cedo sobre isto, mas a notícia de que se preparam para pagar 4 euros à hora aos enfermeiros indignou-me e levou-me a pensar mais uma vez que não estou no país certo...

 

É verdade que sou funcionária pública e há alguns anos atrás eu não teria dúvidas em dizer-vos que com muito orgulho. Fui uma das jovens que, recém-licenciada nos anos 90, imbuída de um espírito de cidadania e dever cívico optei por fazer um estágio na Câmara de Lisboa, pois pensava eu, na altura, poderia contribuir para o desenvolvimento local e planeamento urbano, temas que à época me motivavam. Não era aquela a minha única opção, não joguei pelo seguro, não procurei o facilitismo, não queria um emprego para a vida, mas queria, sim, aplicar o que tinha aprendido na minha licenciatura e ajudar as populações, no fundo queria um trabalho na minha área de interesse e especialização, que é o que todas as pessoas que tiram um curso superior querem fazer.

 

Pois é aqui que está, na minha modesta opinião, a grande falácia da argumentação contra a função pública, dizendo que há excesso de funcionários e que ganham demais. Isto só tem eco na opinião pública porque as pessoas revelam uma grande incapacidade de refletir e analisar a nossa história recente. Não sei se sabem, mas antes do 25 de Abril éramos um país analfabeto, mais pobre ainda e cujo sector de actividade económica predominante era a agricultura. Não havia empregos, a não ser, nos campos. Com o investimento na educação pública destas últimas décadas conseguimos em poucos anos ter níveis de escolaridade próximos da média europeia e um conjunto de profissionais licenciados inexistentes até aí que vieram a constituir a nossa classe média tão falada, mas onde é que se iriam empregar estes novos profissionais num país sem indústria ou sector empresarial? Onde arranjariam emprego todos estes jovens a quem foi dito pelos pais: "Filho, tira um curso superior para teres um bom emprego e um bom salário!" Acho que todos nos lembramos de ter crescido a ouvir isto. Quantos pais se sacrificaram para que os filhos pudessem estudar, para ganharem melhor, sempre a pensar que assim escapariam a um destino de pobreza e trabalho sem compensações na agricultura ou nas fábricas?

 

Como é óbvio o Estado empregou a maioria destes licenciados! Cresceu assim o que chamamos de administração pública e eu diria que cresceu à medida que cresceu a nossa democracia e que se desenvolveu o nosso país. Foram trabalhar como funcionários públicos: engenheiros, arquitectos, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, juristas, advogados, economistas, médicos, enfermeiros, professores, todos aqueles que puderam estudar e assim beneficiar da evolução económica, cultural e social do nosso país nestes 30 anos. São tudo profissões muito válidas e que são fundamentais para o funcionamento normal de uma sociedade, de um país! São os professores dos nossos filhos, os médicos dos nossos hospitais, os mais variados técnicos que dão resposta às nossas necessidades, enfim que prestam um serviço público...

 

Quem os empregaria se não fosse o Estado? Que fábricas ou empresas conheciam vocês na década de 80 e 90 que dessem trabalho a licenciados? Ainda hoje não são muitas. Portanto, a administração pública cresceu e tornou-se no que conhecemos hoje, para o melhor e para o pior...

 

Se me arrependo de ter ido trabalhar para a função pública? Hoje sim, mas naquela altura não! Hoje sim, porque ganho menos do que todos os licenciados da minha idade que conheço e estão no privado, porque não tenho aumentos condignos, porque tenho a progressão na carreira congelada à 10 anos, porque ganho apenas mais 200 euros do que ganhava à 20 anos apesar de ter continuado a estudar, porque trabalho em auto-motivação, sem reconhecimento ou valorização profissional, enfim, porque sou uma privilegiada na opinião generalizada e mereço todos os cortes e penalizações por via da crise!  Mesmo assim, posso dizer-vos que conheci muitos bons trabalhadores na função pública, aliás a maioria, porque senão garanto-vos o sistema não funcionava. Os incompetentes, os maus profissionais, não são a maioria e existem na mesma proporção dos outros sectores de emprego da sociedade. Agora se a administração pública podia funcionar melhor, é claro que sim, sou das principais críticas e posso apontar rapidamente vários aspectos decisivos para essa melhoria. Desde logo, a gestão! Todas os empresários sabem que a gestão de pessoal é fundamental para o sucesso de uma empresa. A escolha dos dirigentes, directores, chefes, etc, é decisiva para se atingir objectivos e ter produtividade. A capacidade de motivar e de comunicar as metas do serviço aos trabalhadores é crucial. Ora se isto são quase verdades "la palisse" porque é que na função pública não se exige a sua aplicação? Porque é que se acha que os funcionários públicos têm que ser produtivos sem terem objectivos, sem tomarem parte na definição das metas, sem muitas vezes lhes ser exigido nada, pois os seus dirigentes não se comportam como tal e não têm qualquer qualidade de chefia?

 

Sei que esta é uma questão complexa e que não vou conseguir aqui discuti-la em profundidade, mas só queria deixar-vos uma nota para reflexão... Muito de nós temos filhos, que estão a estudar e a quem dissemos que deveriam tirar um curso superior e que qualquer dia aí estarão à procura de um emprego... que não há! E podem ser jovens médicos, enfermeiros, professores, o que for, não será fácil para eles arranjar emprego. Terão que ser muito bons, excelentes mesmo e assim talvez consigam... Para todos os outros, os medianos, que são a maioria, só haverá duas hipóteses - criarem a sua própria empresa ou emigrar - duas possibilidades para as quais não os educámos, não os preparámos, pois o que lhes dissemos é que haveriam de ir trabalhar por conta de outrém...

 

Talvez só nessa altura tenhamos a capacidade de compreender a importância que teve o emprego na administração pública até aqui! E talvez demos connosco a pensar:"Que pena o meu filho já não ter hipótese de ser funcionário público"...

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 14:33


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