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auto-terapia

um blog onde escrevo o que sinto e partilho as minhas ideias para quem quiser ler

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um blog onde escrevo o que sinto e partilho as minhas ideias para quem quiser ler

E não é que já vão 50!


CrisSS

Desde que fiz 50 anos que estou para escrever sobre o que significou para mim isto de ter quase meio século. Não vou dizer que foi fácil. Aliás pela primeira vez senti o peso de fazer anos e, principalmente, senti a responsabilidade de ter ainda mais alguns anos pela frente (se tiver sorte) e ter que os aproveitar bem! Ou seja, foi ao fazer 50 anos que percebi que talvez já tenha utilizado a maior parte do meu livre-passe para estar aqui na Terra... e esta é mesmo uma constatação terrível, uma ideia que pesa em nós e que nos ensombra o futuro, mais ainda, quando esse futuro é para nós ainda uma amálgama de cenários, mais ou menos desejados e de difícil concretização...

Claro que o contexto em que vivemos atualmente não ajudou, mas pressinto que mesmo sem este enquadramento pesado e de incertezas, esta seria uma data que teria sempre grande impacto em mim, carregada de um simbolismo inegável, sem dúvida, mas também decisiva porque estou a viver um momento de mudança, de projeto, de realização de sonhos, concretização de ideias e muita esperança de viver o meu propósito aqui nesta vida.

Não sou daquelas pessoas que têm muitas saudades do passado já vivido. De outras idades, de outras fases da vida, guardo inúmeras memórias, imensas recordações (boas e más) e alguns amigos, mas não queria voltar atrás, não queria voltar ao que já vivi, mesmo que bom, porque algo me diz que a vida não se repete e não conseguimos sentir outra vez aquilo que nos fez vibrar naquele momento do passado.

Também não sinto necessidade de ser mais nova. Pode parecer surpreendente, mas gosto da idade que tenho. Ok, talvez 45 seja mais sexy que 50 anos, mas voltar aos 20 ou mesmo aos 30, não obrigado! Agora, claro, adorava ter um corpo mais aproximado do que tinha com essa idade e mais agilidade e principalmente, ver melhor (estou em negação quanto a ter que usar ocúlos), embora assim também não vejo os cabelos brancos que finalmente chegaram, a encabeçar uma lista de pequenos males associados à idade e de que agora me queixo.

O que me mói são outras coisas... O facto de ser mãe de um pequeno de 3 anos ainda e ter já 50... A realidade de que os meus pais já têm quase 80... Mas acima de tudo, a evidência de que ainda tenho tantas coisas que gostava de fazer e já não sei se terei tempo para elas... E foi esta constatação que me levou a escrever este post.

Acho que cheguei àquela idade em que me faz todo o sentido aquela lista de sonhos a realizar que aparece muitas vezes em filmes. Vou ter que a fazer e vou ter que a colocar em local bem visível, não arrumada num livro esquecido, mas sim pendurada no frigorífico. E talvez não seja bem uma lista o que eu preciso aos 50 anos, antes um cronograma com datas muito bem definidas para os meus desejos se realizarem e de preferência com todos os recursos elencados para que esses desejos se tornem mesmo realidade. Ah, pois, amigos, não vale a pena fazer a lista, apenas por nostalgia do que poderia ser... À boa maneira da Cristina, se há uma lista é para se fazer, por isso vamos lá começar!

Não quero com esta lista trazer mais ansiedade para a minha vida ou mais frustação, por isso a lista deve ser muito realista e exequível, o que não quer dizer que não possa ser ambiciosa e comportar uma boa dose de risco, pois eu acredito que não se pode estar na vida sem arriscar...

Vou começar com pequenas coisas, como fazer a minha árvore genealógica para oferecer este Natal, ir fazer um Cruzeiro no Douro na próxima primavera, fazer uma peregrinação a Fátima a pé, ir à Escócia ver as pedras monolíticas e Castelos no próximo Verão, fazer umas férias numa montanha nevada sem fazer ski e outras nas Maldivas sem fazer nada, fazer um retiro espiritual em Bali assim que o Pedro durma sozinho, abrir o meu turismo rural nos próximos anos, entre muitas outras. Depois as mais difíceis: fazer ioga, meditar e caminhar diariamente, aceitar as coisas e as pessoas como elas são, não tentar mudar ninguém, mas contribuir sempre para que se possa ver os outros pontos de vista e ter empatia para nos colocarmos no lugar do outro, ser feliz todos os dias com as escolhas que faço e ser grata por todas as bençãos que a vida me deu!

Esta é a minha lista aos 50 anos, mas conforme for riscando coisas da lista outras poderão entrar, pois a idade o que traz é isso mesmo: a sabedoria para sabermos que podemos mudar, ou porque queremos outras coisas ou porque nem tudo vai correr como planeámos e a capacidade de nos adaptarmos e de conseguirmos começar outra e outra vez porque a coisa mais importante da lista é viver em pleno, sem medo de arriscar e amar sempre, de coração cheio, as pessoas, o planeta, a vida...

Pronto, e agora vão lá fazer as vossas listas!

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora? E depois?


CrisSS

Oiço dizer que este não é o momento de falar do planeta, da natureza, do ambiente, e eu percebo, aceito os argumentos da urgência da sobrevivência e do respeito para com quem está doente, ou a lutar pela vida ou a arriscar a vida por todos nós, para os quais as minhas palavras são de mais profunda solidariedade. Mas, peço que me desculpem, eu sinto que sim, que temos que falar, temos que pensar, temos que aproveitar este momento em que temos mais tempo, para refletir, para ponderar, para saber e conhecer mais, para que depois quando podermos voltar às nossas vidas, estas não sejam as mesmas...

Não se trata tanto de agir, mas sim de olhar em volta, de estar atento, de perceber e de sentir! Perceber que algo mudou, que há coisas que estão diferentes, que talvez o silêncio das ruas nos permita ouvir outros sons, que talvez a ausência de pessoas nos permita ver outros seres vivos, que talvez nos céus agora haja mais pássaros, mais arco-íris, mais luz, mais azul... que talvez agora nos jardins, nos campos, nos parques haja mais flores, mais folhas, mais verde... que talvez agora nos rios, nos mares, nos lagos, haja mais peixes, mais corais, mais azul... que talvez agora tenhamos tempo para ver o que nos rodeia com outros olhos, para pensar em questões às quais não dávamos importância, para nos sentirmos ligados de outra forma ao planeta e ao mundo...

Não sei porque razão estamos agora a passar por esta pandemia. Há quem ache que era expectável, pois sempre houve epidemias ao longo da nossa história e mais cedo ou mais tarde teríamos que passar por isto. Há quem ache que há uma guerra biológica motivada por questões económicas e de geopolítica. Há quem ache que é um castigo divino pelos nossos pecados e fraca fé em Deus. E há quem ache que o Universo está cansado, talvez até moribundo, e que como a natureza é que controla a vida neste planeta teve que agir, já que nós nada fazíamos. Não sei qual destas teorias é que está certa e nem quero saber. O que sei, ou melhor o que sinto, e tenho vindo a sentir nos últimos anos é que a nossa vida atual, virada para o ter, para o consumo, para o desenvolvimento económico sem responsabilidade social nem ambiental, já não me faz sentido. E suspeito que este meu sentimento pode estar ligado ao momento que agora estamos a viver.

Algo tem que mudar! Algo terá que ser diferente depois do que vivemos... Há dias em que tenho uma esperança imensa de que as pessoas, os governos, as empresas, vão repensar o seu modo de estar, as suas atitudes, no fundo o nosso estilo de vida. Mas há outros dias em que temo que depois tudo fique na mesma, que rapidamente se esqueçam os canais de Veneza límpidos, as tartarugas a desovar nas praias da Índia, os céus da China sem poluição, entre tantas outras mudanças ambientais a que temos assistido nas últimas semanas.

Poderão dizer-me que para mim é fácil, pois já tinha mudado de vida, logo estaria mais desperta para ouvir estes sinais e para adaptar o meu comportamento futuro no sentido de preservar o que de mais precioso temos que é o nosso planeta. É verdade que as mudanças se fazem lentamente dentro de nós, que as novas ideias, os novos desejos, os sonhos a concretizar vão devagarinho crescendo no nosso íntimo até que um dia compreendemos que já não somos iguais ao que éramos, que algo está diferente em nós e que a nossa vida irá ter que mudar se queremos estar bem e em paz connosco próprios. Sei por experiência própria que não é por decreto, nem é devido a uma crise que a mudança acontece, mas acredito que é um princípio, é um alerta, que talvez uma pequena semente fique plantada no nosso pensamento, no nosso coração. E pode ser que um dia acordemos e façamos algo de forma diferente ou reparemos em algo que nunca tinhamos notado, como uma grande amiga minha me disse um destes dias que só agora se dava conta (porque tinha mais tempo) da  quantidade de plástico que nos rodeia, que não é possível comprar quase nada sem plástico e que agora está a reciclar e tomou consciência de que tem sacos e sacos com plástico diariamente...

A mudança de estilo de vida depende de nós, mas não só. Ficou claro que a economia tem que mudar. Tem que ser uma economia mais verde, mais circular. Tudo pode e deve ser reciclado, ou reutilizado, ou transformado. O modo de produção tem que ser sustentável do ponto de vista ambiental. As nossas empresas, as nossas fábricas, não podem poluir nem desperdiçar, é um imperativo moral, na minha opinião. Há algumas mudanças que são urgentes e perfeitamente exequíveis. Temos que exigir carros elétricos a preços acessíveis a qualquer cidadão. Temos que deixar de produzir os outros carros e de usar combustíveis fósseis, doa a quem doer. Os nossos transportes públicos têm que ser elétricos, os táxis, os Uber, também. Temos que repensar a forma como viajamos, preferir os comboios aos aviões e barcos de cruzeiro. Sabiam que 1 km de avião é 45 vezes mais poluente que 1 km de comboio de alta velocidade? Não se trata de regredir ou de parar o avanço tecnológico, mas sim colocar a ciência e a tecnologia ao serviço deste desígnio que é termos um planeta mais saudável e podermos ser nós próprios mais saudáveis.

Há outras pequenas mudanças que temos que fazer. Sim, reciclar é importante, mas consumir menos também é. Quando deitamos algo fora, pensar em qual será o destino desse produto? Poderá ser reutilizado por outra pessoa? Poderá ser transformado noutra coisa? Ou vai apenas encher mais ainda os kilómetros de lixeiras a céu aberto? Será que precisamos de tantas coisas novas? E qual a minha responsabilidade sobre o velho, o que já não quero ou já não uso? Estas são as perguntas que teremos que fazer diariamente.

Também é importante repensarmos a nossa relação com o campo, com o rural, com a agricultura, com a floresta. Não me interpretem mal. Adoro a cidade. Os meus avós paternos eram puros alfacinhas, vivi, trabalhei e conheço Lisboa muito bem. Mas sempre joguei um xadrez em dois tabuleiros como dizia um grande sociólogo que tive o prazer de conhecer, e o campo também sempre fez parte da minha vida, da minha infância, das minhas memórias e sinto-me uma privilegiada por isso e muito grata por também ter podido proporcionar essa vivência aos meus filhos. No meu caso esta vivência teve como resultado escolher o campo para viver nesta nova fase da minha vida e se esta opção se revelou a mais acertada agora neste momento difícil que estamos a viver... E talvez vocês também tenham por aí algures neste nosso país pequenino um pequeno cantinho que era dos avós, dos tios, dos pais e do qual se esqueceram, ou que nunca valorizaram e ao qual é tão importante voltarem. Porque este voltar, não quer dizer que abandonem tudo, mas quer dizer que respeitam, que preservam, que não deixam ao abandono e permite passar uma mensagem de valorização, de orgulho e de admiração pela natureza, pelo ambiente, pelo planeta. Sim, porque acreditem, a preservação do planeta começa aqui, na nossa casa, no palheiro a cair aos bocados que era dos bisavós, no pinhal que ardeu e está abandonado na terra dos pais, na casinha de pedra que nunca se visita na aldeia, no campo agrícola que agora já não tem nada plantado. E é urgente passarmos esta mensagem aos mais novos que querem fugir do interior, das suas vilas de origem, do mundo rural, porque sentem que nada aí tem valor e que na cidade é que se vive bem...

É uma mudança de paradigma, de visão do mundo, mas não é assim tão difícil e alguns de nós já começaram e outros estão agora a pensar como é que podem mudar... É uma missão para as escolas, para os governos, para as associações, para todos nós! Porque não podemos voltar à mesma vida que tínhamos antes, porque agora sabemos que é possível, que podemos fazer diferente... e porque é mesmo preciso se queremos que todos no futuro fiquem bem...

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai onde te leva o coração...


CrisSS

Com esta frase que muito me diz (obrigada Susanna Tamaro) inicio um novo capítulo nestas minhas andanças pela escrita. Como este é um post sobre mudanças, comecei logo por ter de alterar o template do meu blog, que ao que parece não estava devidamente adaptado aos dispositivos móveis. Enfim, era um Velho do Restelo, como eu, que de vez em quando lá tem de fazer concessões à evolução tecnológica e atualizar-se como é suposto, em tudo diria eu, nos dias que correm. Ainda pensei alterar tudo, fazer um novo blog, dar-lhe um novo título, mas vocês sabem como é, em mim as mudanças são lentas, muito pensadas e não cedo a impulsos imediatos com facilidade, por isso por agora vamos andando em baby steps...

E agora que o meu blog já é mais mobile friendly (espero eu) vamos ao que tenho para vos dizer: finalmente mudei de vida! Digo finalmente, pois quem me conhece, realmente, sabe que desde há muito sonhava em mudar, de emprego, de local de residência, de vida mesmo! Como tal, cá estou de armas e bagagens, em Serpins, mais exatamente na Ribeira Cimeira, um lugarejo com 6 casas, apenas duas habitadas em permanência, onde se acede por estradas de terra batida e estamos a dois kilómetros do comércio mais próximo. Estamos a viver na casa que era dos avós maternos do meu marido, com os nossos dois filhos, um gato e três galinhas! Estamos em obras há oito meses e durante este período tentámos adaptar-nos e instalar-nos na nova casa e principalmente na nova vida que escolhemos.

Mas não foi fácil e continua a não ser... Serve este post um bocadinho como um aviso à navegação: confirma-se que não é fácil mudar de vida e por mais desejada e planeada que seja a mudança, o que eu aprendi é que não é imediata, como em quase tudo, leva o seu tempo, que pode ser meses, anos, depende da nossa história e capacidade de resiliência e adaptação. Mas chega um dia em que finalmente podemos dizer: estou em casa! E tudo passa a fazer sentido e percebemos que era mesmo isto que queríamos apesar de não ser exactamente o que tínhamos pensado...

Esta foi outra grande lição que aprendi com a mudança: podemos fazer grandes planos, ter tudo previsto e acautelado, ter sonhado cada pormenor - que nada vai ser igual ao que pensámos! A vida encarrega-se de nos mostrar outros caminhos, outras realidades, abre-nos outras perspetivas nas quais não tínhamos pensado e às vezes até dá a volta completa aos nossos planos... e o nosso papel é aceitar! Deixar ir! Perceber que não temos controlo e até talvez acreditar que as coisas não nos acontecem por acaso e que tudo tem alguma intenção, algum objetivo que podemos não ver no momento, mas que nos será revelado na altura certa e tudo passará a fazer sentido...

Também aprendi que os problemas que tínhamos, aqueles que achávamos que pura e simplemente ficariam para trás com a mudança, não desapareceram... estão presentes, mantêm-se e até se tornam mais agudos, mais acutilantes, como a dizer: "-então, resolve-me?" "-o que esperavas?" "-estou aqui como sempre estive e vais ter que me enfrentar se queres mudar de vida !" - e temos mesmo que nos voltar para dentro de nós e olhar para esse lado que dói, que permanece escuro, de que não gostamos e trazer-lhe luz e claridade e aqui a mudança pode ajudar, dá-nos força, coragem e persistência, porque não nos faz sentido ter uma nova vida e persistir nos velhos padrões, nos maus hábitos, nas relações tóxicas, e assim a mudança torna-se mesmo o motor da nossa evolução como indivíduos, como pais, como filhos, como companheiros até que seja possível vermo-nos como nos sonhámos.

Outra aprendizagem que fiz é que é muito diferente mudar sozinho ou em família. Não sei qual é pior ou melhor. Só sei que sozinho parece mais fácil, por que temos a ilusão de que só dependemos de nós para estarmos bem e felizes... Mas há a solidão e essa pode ser terrível! Em família, tens os outros para te apoiar, para te amar, para construir algo novo em conjunto, mas também para te enlouquecer, para te culpar, para te fazer sentir responsável se algo correr mal e se o sonho de todos serem felizes não se concretizar...

As mudanças, quer sejam impostas, quer sejam desejadas, são sempre mudanças e implicam deixarmos algo para trás, abandonarmos algo existente que já fez muito sentido para nós, perdermos referências, memórias, até pessoas, mas compreendi que tudo isso é necessário, que isso é viver, que não podemos estar aqui nesta caminhada pela vida sem mudar, sem conhecer o novo, o diferente, no fundo, sem evoluir.

Podem estar a perguntar-se se me arrependi: claro que não! Hoje sou uma pessoa diferente. Acho que estou mais madura. Estou a tentar ser mais paciente, menos controladora, quero viver mais no presente, no aqui e no agora. Quero ter mais tempo para mim e para aquilo que é realmente importante. Quero estar com as pessoas que me trazem paz e que também querem estar comigo. Quero estar mais atenta a mim, aos outros que me são próximos e ao que me envolve, ao que me rodeia, ao que me preenche a alma. Quero estar disponível para amar e para receber amor. Quero estar onde estiver o meu coração. Porque é isso que me vai fazer feliz e é isso que importa. Sempre!

 

 

Até sempre Tio Necas...


CrisSS

Não é por uma boa razão que regresso à escrita, mas foi este o motivo que me levou a ter uma vontade inadiável de escrever. Às vezes escrevo por indignação, outras vezes por imensa gratidão e, muitas vezes, porque sinto ser a melhor forma de prestar homenagem a quem foi importante na minha vida, e é este o caso...

Ontem recebi a notícia de que já não estava entre nós o meu tio Necas, ou melhor Manuel Rocha, o "Rocha" da família, o único que ostentava esse título orgulhosamente, fazendo justiça às suas origens beirãs, embora ele sempre tenha estado muito bem integrado na vida urbana e bem rendido ao sol e à praia onde fomos muito felizes...

Passei o último ano a pensar que tinha de ir visitar o meu tio e infelizmente não o fiz. É sempre assim: não vamos ver quem devíamos, não telefonamos a quem gostamos, não abraçamos aqueles que amamos, no fundo, deixamos a vida passar sem alimentarmos esses afetos e quando damos conta o quotidiano ultrapassou-nos e já não é mais possível dizermos a essas pessoas o quanto gostamos delas... e é por esta razão que escrevo hoje, porque tenho mais uma vez esta mágoa e acho que não faz sentido continuarmos neste registo do "eu devia ter feito". A vida é nossa, as decisões somos nós que as tomamos, há sempre várias opções possíveis e são uma escolha da nossa vontade. Por isso temos que agir de acordo com o que sentimos e principalmente quando sentimos e não adiar! Nunca adiar, porque pode não haver amanhã...

Isto vale para tudo, claro, mas é muito mais importante quando se trata de pessoas que já estão naquela fase da vida em que o passado parece ter ficado muito lá atrás e as perdas se foram acumulando, deixando um rasto de ausência e de solidão inaceitáveis. Temos que ter tempo para estas pessoas, para aquelas que foram as "nossas" pessoas, pois deixaram a marca do amor e da amizade no nosso coração. Sei que às vezes é difícil, essas pessoas já não são as mesmas, a vida marcou-as de formas estranhas e o que nos juntou no passado parece já não existir, mas é aqui que temos que ter compaixão e dar o melhor de nós, pois se houve afeto, ele deve ser honrado e celebrado,ou não fosse ele, o afeto, a matéria que nos dá vida...

Mas dizendo isto, sei que me dói a forma como envelhecemos aqui no nosso cantinho à beira-mar plantado. Envelhecemos mal, muito mal, é triste, é penoso, é muitas vezes deplorável, o modo como vamos passando os anos, sim, porque nem vida se pode chamar, às vezes... muitas vezes... E não estou só a falar das pessoas muito idosas, não, estou a falar de nós, de mim, da forma como nos deixamos andar e como adiamos o tomar a nossa vida em mãos. Todos os anos dizemos: vou emagrecer, vou fazer yoga, vou deixar de fumar, vou fazer exercício, vou marcar um check up, vou inscrever-me em aulas de dança, vou fazer aquela viagem, vou casar, vou-me separar, vou visitar aquele amigo, vou deixar o emprego, vou mudar de vida... e nada, ano após ano... e a idade avança e, depois, cada vez é mais difícil!

A nossa vida é muito preciosa, sem dúvida, mas ela não faz sentido sem afeto, sem rituais, sem celebrações, sem momentos de amor incondicional, sem laços apertados de amizade, que podem já ter sido muito intensos no passado e não o serem agora, mas isso não importa, pois é dessas memórias de afeto que nos alimentamos.

O meu tio está num desses lugares do meu coração, lá na minha longínqua infância. Lembro-me tão bem da sua voz, da sua pele morena, da sua careca, e tenho marcados de forma indelével, os pic-nics em Sete Casas cheios de mantas e almofadas, as idas à praia à Costa e o regresso já depois do sol se pôr, as caracoletas assadas em chapa de aço aqui na mata em Sto. António, petisco no qual ele era exímio e que diziam que eu comia quando era pequenina (pasme-se), a pequena horta que ele fez debaixo da janela de casa num canteiro, e as inúmeras festas onde ele dançava como ninguém e era o mais divertido e cujas músicas eu sei até hoje e que agora com a sua ausência me vão fazer chorar...

Desculpa, Tio Necas, eu sei que devia ter ido ver-te e gostava muito de ainda ter falado contigo mais um bocadinho, sobre a tua vida, sobre o teu passado lá na terra, sobre tudo o que tu e eu quiséssemos, e gostava mesmo de te ter dado um abracinho apertado e um beijinho especial e, principalmente, de ter ouvido contigo mais uma vez o "Super Trouper" dos ABBA...

RIP

 

 

 

 

 

 

 

O meu milagre!


CrisSS

 Aproveitando o enquadramento do 13 de Maio vou falar-vos de milagres. Sim, de milagres, pasme-se, porque eu inacreditavelmente tive o privilégio de ser abençoada com um! Porque quer-me parecer que isto dos milagres não acontece quando nós queremos ou pedimos ou achamos que precisamos, mas antes quando tem que ser, quando já não estamos à espera, quando realmente precisamos... 

E eu tive o meu milagre no dia 20 de Dezembro de 2016, às 16h49, e a minha vida mudou para sempre, mais uma vez!

Tudo começou em maio do ano passado, numa das alturas mais tristes da minha vida, a recuperar de uma grande perda e de um susto, quando eu comecei a achar que estava com uma pré-menopausa, mas que afinal se veio a revelar uma surpresa imensa quando descobri que estava grávida pela segunda vez! Lembro-me do sono, do cansaço, até que finalmente a minha intuição me convenceu e fui comprar um teste. Como é que é possível, pensei? E o espanto inicial deu logo lugar a uma alegria imensa, mas contida ainda, pois não partilhada ao mundo.

Dir-me-ão que todo o nascimento de uma criança é um milagre e é verdade, mas qual seria a probabilidade de isto me acontecer aos 45 anos, sem tratamentos, sem pensar no assunto e sem qualquer planeamento... Digo-vos eu que seria menos de 5%, pois vi num programa de infertilidade que essa é a probabilidade de engravidar para as mulheres de 40 anos, por isso imaginem qual será para as de 45!

Tal como da primeira vez adorei estar grávida e desta vez senti-me ainda mais abençoada precisamente porque nunca pensei que tal ainda viesse a acontecer. Claro que nem tudo foram rosas e assim desde cedo tive que me conformar com o rótulo de grávida de risco, no início mais pela idade (que ninguém me dava) e pela necessidade de fazer inúmeros exames de diagnóstico. A espera, a dúvida, a angústia de saber os resultados levaram inevitavelmente à ansiedade que foi aumentando de dia para dia com o medo de que algo pudesse não correr bem com a gravidez ou com o parto. E assim numa gravidez que estava a correr lindamente foram aparecendo algumas coisas provocadas pela minha ansiedade, que levaram a que o meu bebé nascesse antes do previsto com 36 semanas e 4 dias. Mas o milagre continuou e ele nasceu lindo, perfeito, maravilhoso como todos os bebés deviam nascer!

Este bebé veio ao mundo para me ensinar muita coisa e já começou... Tenho que seguir mais a minha intuição. Tenho que ser mais assertiva e usar a minha inteligência emocional e não ser agressiva, exigente e impaciente. Tenho que me relacionar com os outros com menos ansiedade e mais paciência, ouvir mais, falar menos, saber esperar, estar atenta aos sinais que o Universo me envia, no fundo e em resumo olhar mais para dentro de mim e ouvir aquilo que o meu eu interior tem para me dizer. Meditar! Fazer exercício! Ler! Ouvir música! Cantar! Dançar! Amar!

Encontrar o meu tempo, o meu lugar, o meu propósito! É que eu fui abençoada com um milagre e o mínimo que posso fazer é agradecer diariamente a vida que tenho, a minha família, o meu outro filho extraordinário e o amor que me rodeia e procurar todos os dias a melhor forma de retribuir as bençãos que recebi... Só o amor e a compaixão nos permitem evoluir e nada melhor do que ter um bebé para nos inundar desses sentimentos e querer tornar o mundo num sítio melhor. No fundo, quero dar aos outros um pouco daquilo que recebi...

Sim, porque acreditem: os milagres existem. E o meu chama-se Pedro :)

 

 

 

Acreditar no amor!


CrisSS

Vem este post a propósito do amor... e da celebração desse amor por parte de duas pessoas muito especiais e que me são muito próximas. É também uma reflexão sobre a coragem de amar e permanecer juntos na vida apesar de todas as dificuldades que isso acarreta... Mas é principalmente um texto sobre a beleza do amor, a importância da entrega ao outro e a necessidade de autenticidade na relação a dois.

Tudo à nossa volta nos faz ter sentimentos ambivalentes sobre o amor: tanto ficamos desesperados pelos supostos falhanços dos casamentos que nos fazem desacreditar no amor, como assistimos nas redes sociais e nos media a demonstrações extremas de amor e de afeto até ao final da vida que nos deixam de pernas bambas e de coração aos saltos. Tanto oscilamos entre estados de alma imensamente românticos que nos deixam agarrados à televisão a ver pares enamorados, com um lenço nas mãos e lágrimas nos olhos, como juramos nunca mais voltar a amar e desistir de vez desse grande animador de alma que é a paixão. E tudo isto é o amor!

Parece-me a mim que o amor é inevitável e que é impossível escapar-lhe. Acho até que não amar não é desejável, nem saudável e que o amor é o grande desígnio da humanidade. Quem não ama, não é humano e não pode estar equilibrado, pois também não é amado, por isso não está completo. A capacidade de entrega ao outro, de dádiva, de compaixão, tudo isto são manifestações do amor e são em última instância as pedras de toque da felicidade...

E aqui é que começa a parte de que nós não gostamos tanto: a felicidade não é imediata, é construída com o amor, diariamente, nos pequenos gestos e momentos do quotidiano, e implica a tal entrega e disponibilidade para o outro que dá algum trabalho, para não dizer muito... E para ajudar à festa, esse amor que nos dá tanta felicidade, também nos traz outra emoção, pasme-se, que é o sofrimento... e deste é que nós não gostamos mesmo nada!

Mas meus amigos, lamento informar-vos, é impossível amar sem sofrer. E não estou a falar da rejeição ou de quando o amor termina. Estou a falar de vermos o objeto do nosso amor triste, deprimido, doente ou afastado de nós, pois amar a sério implica sempre sofrer quando o outro sofre e quem não sente esse sofrimento é porque na realidade não ama... Amar alguém, dar-mo-nos ao outro, tem sempre como base o apego, tudo o que demos e recebemos do outro, que cria uma ligação indelével que nos une e nos torna vulneráveis, pois como diz o Principezinho, é o tempo que perdemos a cuidar de alguém e a criar um laço que torna essa pessoa especial e quando não a vemos sofremos...

Portanto, não há rosa sem espinhos e com a dádiva de amar alguém e ser amado vem também muito trabalho: persistência, perseverança, aceitação, tolerância, compreensão e alguma frustração e sofrimento.

E é por esta razão que queria homenagear duas pessoas que casam hoje, ao fim de alguns anos de vida em comum, com dois filhos e muito amor! Quero homenageá-los por várias razões: primeiro, pela coragem, pela persistência, pela aprendizagem mútua e principalmente pela entrega e compromisso com a relação. Sim, porque não julguem que é tudo maravilhas, que não houve desaires, que não houve lágrimas, discussões e amuos. Claro que houve e haverá sempre, pois somos humanos e é dessas matérias que somos feitos - contradições, traumas, desequilíbrios, inseguranças - mas o que importa é a nossa capacidade de perdoar, de compreender, de evoluir, de aceitar o outro como ele é e ao mesmo tempo tentar mudar, esforçar-mo-nos por sermos melhores, sempre, por mais difícil que possa ser...

Acredito que só assim uma relação possa durar. Acredito que o amor também é construído e que essa capacidade de continuar a acreditar nesse amor, depois dos problemas financeiros, das zangas, das crises pessoais, das frustações profissionais, das perdas familiares, é o segredo para uma relação que permanece e que cresce ao longo do tempo.

Claro que esse amor tem que ser alimentado e que tem que continuar sempre a haver prazer em viver a dois, porque de outra maneira não vale a pena. Cumplicidade é fundamental, rir juntos, falar, conversar, intimidade plena, são peças chaves da relação. Companheirismo, amizade e confiança também são fundamentais. Não acredito em relações em que não se respeita a diferença do outro, em que ambos se anulam e fingem ser o que não são, pois para uma relação funcionar ambos têm que encontrar espaço para crescer como pessoas individualmente e ao mesmo tempo voltarem sempre a encontrar-se no caminho em conjunto. Há que dar espaço ao outro para ser aquilo que quiser, desde que esse futuro imaginado tenha sempre em pano de fundo a vontade de partilha e de comunhão com o outro. Sem dúvida que isto é o mais difícil e que às vezes se traduz em altos e baixos na relação, mas acredito que desde que haja amor, com diálogo e com tempo, o equilíbrio pode ser conseguido.

A verdade é que a vida é uma caixinha de surpresas, passe o cliché, e temos que aceitar tudo o que ela nos trouxer - o bom e o mau - pois se não o fizermos é tudo mais complicado. A boa notícia é que somos nós também que construímos a nossa vida, na medida em que fazemos escolhas e optamos por ter uma determinada atitude perante o que nos vai calhando em sorte. É aqui que nós podemos decidir que é muito mais fácil o caminho se este for feito a dois e é por isso que o amor é sempre a panaceia universal para as coisas menos boas que nos vão acontecendo e a única fórmula para se viver uma vida plena e rica, seja o amor em casal, seja o amor de filhos, pais, família, amigos, animais, no fundo o amor universal, aquele que eu acredito que é a energia divina...

Por isso, minha querida irmã, meu querido cunhado, muitos parabéns por continuarem a acreditar na força do vosso amor um pelo outro e pelos vossos filhos! Nunca desistam, nunca desesperem e acreditem sempre que a dois é tudo muito melhor!

 

 

 

Parabéns "filhote"... da tua "mãedrasta"...


CrisSS

Hoje o meu "filhote" André faz 18 anos! Sim, o meu "filhote", porque ele apesar de ser o meu enteado, também é um pouco meu filho, é um filho do coração! 

Lembro-me perfeitamente que foi na segunda ou terceira vez que saí com o teu pai, que ele muito nervoso diz que tem uma coisa para me contar: "- Tenho uma coisa para te dizer..." E eu apreensiva com o que aí viria, digo-lhe que avance: "- Sabes, tenho um filho... E eu -"Áh, ok, é só isso, tudo bem!" E percebi desde logo o quão importante eras para o teu pai e o imenso sofrimento em que ele estava por tua causa... O que eu não percebi logo nesse dia foi o papel que irias ter na minha vida!

Conheci-te pouco tempo depois, pois foi muito importante para o teu pai que no pouco tempo livre que ele tinha pudesse estar com as duas pessoas mais importantes para ele naquela fase da sua vida. Eras um bébé lindo, muito fofinho, com aquele cabelo à tigelinha, mas um pouco desconfiado (como o teu pai), muito chorão e que não comia absolutamente nada (o que sempre me fez muita confusão como sabes) e eu é claro entrei em força nesta relação com todo o meu instinto maternal ainda não utilizado...

Sim, porque no meu caso, a figura clássica da madrasta não se aplicou (espero que concordes) e nunca senti que tinha de te afastar do teu pai ou que tinha de competir contigo pelo afecto dele e muito menos como já ouvi inúmeras histórias, achei que o teu pai iria gostar menos dos meus filhos com ele do que de ti... Não tive dúvidas de que podíamos ser todos uma família, diferente sim, mas todas o são, e que os laços que estávamos a criar seriam para sempre! É assim que eu sou, como sabes, e não me arrependi de nada do que fiz em relação a ti, a não ser talvez de não ter ainda tido mais tempo contigo, mas foste sempre o meu "filhote" emprestado... E eu "emprestei-te" toda a minha família, por isso passaste a ter mais tias, mais avós e muitos, muitos, mais amigos, que te adotaram sem reservas!

Durante muito tempo foste o nosso bébé - quando podíamos usufruir de ti - e juntamente com a Marty (que foi o teu primeiro cão e que te adorava) foste alvo de todo o nosso afeto e pude testar contigo todas aquelas teorias que eu lia nos manuais de educação e pedagogia e nos trabalhos das minhas alunas. Gosto de pensar que te ajudei a ter algum gosto pela leitura, quando impus ao teu pai a leitura da história para dormir. E sei que não era bem a prenda que tu querias, mas foram muitos os livros que te ofereci ao longo destes anos! Gosto de pensar que temos algumas coisas em comum, como gostar de banda desenhada, mas o teu sentido de humor é o do teu pai, sem dúvida! Sei de algo que temos em comum: o amor pelos animais e nisso és muito mais parecido comigo do que o meu próprio filho... Chateei-te muito por causa da alimentação e preocupei-me muito com isso, mas felizmente, hoje em dia comes que nem gente grande e só tenho pena que não gostes de fruta...

Sempre foste uma criança incrível, muito forte e corajoso! A tua paixão era e é o futebol... Ainda te estou a ver a correres com a bola nos pés pelos corredores da casa de Massamá e depois aqui. Conseguiste que eu que não ligava nenhuma ao futebol fosse passar tantas manhãs e tardes a ver os teus jogos e vingança suprema ainda puseste o bichinho do futebol no teu irmão! E como me fazia confusão que tu tão pequenino e com tanta coragem entrasses naqueles campos, no meio dos outros sempre maiores que tu, e ali andasses a fintar meio mundo com a bola nos pés, sem medo de te aleijares! O pior depois era desinfectar as feridas...

Também me lembro de como tinhas medo do mar e de te ensinar a boiar e a nadar no nosso Cabril, onde aprendeste a superares-te e mais uma vez corajoso até saltavas das pedras, para agora mais crescidinho chegares a mergulhar de tão grandes alturas!

Sempre foste muito inteligente e a escola para ti não encerrou dificuldades de maior. Fiquei tantas vezes surpreendida com o pouco que estudavas e a forma como mesmo assim conseguias tirar boas notas! Mas sabendo as tuas capacidades não duvido que podes alcançar o que quiseres se apenas te dedicares um pouco mais...

Nunca duvides de que és especial e que a timidez de que te queixas agora e que herdaste do teu pai, um dia vai ser valorizada por aquela miúda/mulher também especial que saiba ver para além do que és por fora (giríssimo) e que te olhe por dentro e veja o quão maravilhoso és! E não desesperes porque se até o teu pai conseguiu encontrar quem o aturasse também há esperança para ti...

Muitos parabéns "filhote" por estes teus 18 anos e não julgues que já chegaste lá, pois estes são apenas o princípio de tudo o que ainda aí vem e que será muito melhor!

Adoro-te!

 

PS - Recado da "mãedrasta": E agora que tens cada vez menos tempo não te esqueças de nós, principalmente do teu irmão que te idolatra!

 

 

 

 

 

 

Adeus Marty... até sempre!


CrisSS

A minha Marty já não está entre nós... A minha Marty era o "mê" cão! O cão mais lindo do mundo (como eu lhe dizia...). E agora já não está aqui comigo e hoje ao acordar senti essa ausência em toda a casa e em todo o meu ser...

A Marty era um cão de água espanhol ou perro turco, como a veterinária insistia em chamar-lhe. Não conheciámos mais nenhum aqui nas proximidades e apenas uma única vez encontrámos uma cadela igual, mesmo igual, preta e branca, na estação de serviço da Ponte Vasco da Gama. E nem queríamos acreditar! Apesar de estarmos sem a nossa Marty, falámos imenso tempo com os donos e trocámos experiências e características dos nossos cães, que eram mesmo muito parecidos. Nunca mais vimos nenhum igual! Por isso a Marty era única! Por isso e por outras coisas...

A Marty veio à nossa vida por intermédio de uns amigos, grandes amantes de cães e de todos os animais, que a trouxeram de Sevilha, onde ela estava numa feira de adopção. Trouxeram-na para casa, deram-lhe banho, trataram dela e iniciaram a sua busca por uns donos, pois eles já tinham os seus cães e acharam que a Marty merecia uns donos especiais, só para ela. Apresentaram-na com o seu nome - "Martírio Del Gran Poder" - e com um cartão de visita onde se dizia que ela era - "Hija de la Perra de Huelva" - nascida na Andaluzia, cidade de Sevilha, a 1 de Abril de 2002, ilustrando o quão importante ela era e viria a ser mais ainda nas nossas vidas...

E foi assim que a Martírio chegou a 22 de julho a Portugal e umas semanas mais tarde à nossa vida, por graça de uma amiga que achou que este seria o cão ideal para mim e para o Mário com quem eu estava já a partilhar a vida. Fomos vê-la e, claro, foi amor à primeira vista, ficámos com ela e chamámos-lhe Marty, pois o nome de Martírio, pareceu-nos premonitório demais.

A Marty já tinha cerca de 6 meses quando a adoptámos e num cão isso faz muita diferença. É um pouco como os primeiros anos de desenvolvimento de um bebé, que são decisivos para a formação da sua personalidade. Com a Marty passou-se o mesmo e ela tinha todos os tiques de um cão que foi adoptado e cujo passado encerra uma história de abandono e algum sofrimento. Tornou-se um cão inseguro, medroso, mas também super-protetor, era a minha sombra, completamente dependente do nosso afeto e atenção...

A Marty era também um cão pastor. Ao contrário do que o nome da raça indicava não era uma amante de banhos, embora adorasse deitar-se na água para se refrescar. Mas o que ela gostava era de campo, de erva, de correr livre, de preferência atrás de alguém ou de outro cão. Agia como se estivesse a guardar um rebanho, impedindo os intrusos de se aproximarem e mantendo as suas ovelhas bem protegidas, não hesitando em dar uns toques de aviso se alguém se aproximasse de nós de repente. Mas era muito meiga, extremante carente e todos os nossos amigos que com ela privaram sabem o quão chata ela podia ser, quando queria festas e atenção. 

Era um cão muito inteligente (como todos, mas esta era a minha cadela) e nós conseguíamos comunicar de várias formas. Ela percebia tudo o que eu queria que ela fizesse e conseguiu arranjar forma de me comunicar o que precisava e em último caso se a comunicação falhasse, insistia em ganir até conseguir o que queria. E ganhava sempre!

A Marty era maravilhosa e veio também às nossas vidas para nos ajudar a sermos pessoas melhores... Como ela não era perfeita (como ninguém é) e tinha uns donos com a mania da perfeição, nem tudo foi fácil e cometemos muitas injustiças com a Marty, das quais nos arrependemos profundamente, mas sei agora que essa foi a sua missão... Como me doem as vezes em que lhe disse que ela era uma chata que não me largava, em que não me apeteceu levá-la à rua a dar grandes passeios, em que lhe dei uma palmada porque se atirava a toda a gente na rua ou quando ladrava furiosamente sempre que tocavam à campainha...  Tudo isto ela aguentou, porque era assim que ela era e não sabia ser diferente, nem conseguia mudar e cabia-me a mim aceitá-la como ela era, sem críticas, sem julgamentos, com paciência, tolerância e amor, pois é esta a única forma de amar alguém - incondicionalmente.

Sei agora o quão especial a Marty foi na minha vida e como sempre, às vezes só aprendemos tarde demais, e só quando ela começou a ficar doente e a perder as suas faculdades, nos apercebemos que nada do que nos irritava tinha importância... pois agora dávamos tudo para a encontrar debaixo dos nossos pés e tropeçar nela e sentimos a sua brutal ausência quando tocam à porta... 

A Marty veio para nos ensinar a aceitar a imperfeição, a sermos menos críticos, menos exigentes com os outros (e como isto é importante para educarmos os nossos filhos) e foi tão especial que até nos deixou no dia em que eu tinha recebido uma péssima notícia, que me iria deixar muito triste e revoltada e que assim foi aceite de outra maneira, pois agora sei que não posso mudar as coisas com raiva, arrogância e sobranceria, pois não é com luta que se muda ninguém (nem o comportamento de um cão ou de um filho), mas sim única e exclusivamente com amor e compaixão.

Por isso, Marty, peço-te que me continues a iluminar ao longo da minha vida e que não me deixes esquecer da lição que me ensinaste, pois quero que continues a viver em mim através da forma como me ajudaste a ser uma pessoa melhor e que isso seja visível para os que comigo lidam.

És especial, és o "mê" cão e és o cão mais lindo do mundo!

 

 

 

Eu, Cristina, cidadã europeia, cidadã do mundo...


CrisSS

Como sempre, apesar de andar arredada das escritas, todos os dias ao ouvir as notícias da manhã na rádio, algum facto me desperta interesse e convoca em mim um desejo urgente de me manifestar. Hoje foi a notícia sobre os desenvolvimentos na posição do Reino Unido sobre a sua pertença à União Europeia.

Não posso dizer que seja uma europeísta convicta, no sentido de fundamentalista, mas sei que a ideia de uma Europa comum - na defesa dos seus interesses, valores e principalmente dos direitos dos seus cidadãos - me agrada e considero que seja um projeto pelo qual se deve continuar a lutar. Gosto de poder circular livremente por este velho continente, apresentando apenas o BI, e gosto da possibilidade de ser cidadã europeia com os mesmos direitos que os meus restantes congéneres. Acho que estas conquistas da Europa Comum não se devem perder, pois isso seria um retrocesso civilizacional e demonstraria que não é possível vivermos em paz, em harmonia, num designío comum, onde o valor da tolerância impera.

Por isso custa-me ouvir os arautos da desgraça que estão já a afirmar que esta Europa não vai durar e que todo o esforço que alguns (não todos é verdade) desenvolveram para que ela fosse uma realidade, foi em vão, pois a união económica e monetária não passou de uma ilusão, de uma utopia. Mas eu gosto de utopias e acredito que sem elas o ser humano não consegue ser feliz, nem atingir todo o seu potencial...

Sei perfeitamente que a Europa Comum tem muitos problemas e que o sonho fundador está muito longe de ter sido atingido. Também não gostei dos últimos 3 anos nem das imposições externas a que o nosso país esteve sujeito. Mas lembro-me bem que ao longo destes 30 anos recebemos muito dinheiro dessa Europa e que muito do que conseguimos alcançar enquanto país e a evolução de todos os indicadores macro-sociais se deveu a esse dinheiro que nos chegou (embora pudesse ter sido muito melhor aproveitado, eu sei) e principalmente à legislação europeia que nos permitiu sair do atraso crónico em que nos encontrávamos e caminhar no sentido da modernidade, em questões como o ambiente, os direitos humanos, entre muitas outras.

Claro que também me preocupa a situação de todos esses portugueses que foram para o Reino Unido nos últimos anos e todos os outros que ainda estão para ir, procurando fugir à falta de emprego e principalmente de oportunidades de crescimento que é a realidade atual do nosso país. Alguns deles são meus amigos, parentes até. Mas também me preocupam todos os outros, muitos, que são pessoas que eu não conheço, nem preciso de conhecer para saber que estão desesperadas, a lutar pela sua sobrevivência e que vêm à procura precisamente dessa Europa da tolerância, da solidariedade, da proteção na doença, da educação para todos, no fundo aquilo que nos distingue dos seus países e continentes de origem. Vêm à procura do sonho europeu...

E o que distingue o nosso modelo de União Europeia são mesmo estes valores de entreajuda económica, de coesão social, de igualdade e a grande ideia de que os mais ricos ou os mais fortes, podem ajudar os mais fracos ou mais pobres. E é nisto que eu acredito e é por estes valores que me pauto. E só espero que uma grande maioria dos cidadãos ingleses assim também pensem quando chegar a altura de referendar a sua participação nesta Europa Comum. 

Embora a posição do Reino Unido não seja nova e as suas atitudes imperialistas também não, o que me preocupa é o efeito de contágio que a sua saída possa ter em outros Estados membros e a mensagem que passamos para o resto do mundo. Este não é o momento de nos dividirmos, mas sim o momento de nos unirmos. Todos sabemos que o mundo se encontra numa encruzilhada, mas acho que poucos aceitam que enquanto permanecerem os problemas de pobreza crónica, ausência de proteção na doença e acesso à educação de alguns países, muito dificilmente poderemos viver em paz aqui no nosso cantinho.

Mesmo porque já não faz sentido esta apologia do "orgulhosamente sós"... O mundo é global e temos que o aceitar em todas as suas dimensões e não só naquelas que nos interessam, como podermos comer mangas e salmão todos os dias, apesar de eles não fazerem parte do nosso ecossistema local, ou podermos partilhar num segundo com todo o mundo as nossas férias no Brasil ou na Índia... E nós portugueses sempre fomos cidadãos do mundo, tal como a maioria dos seres humanos que sempre se deslocaram por toda a terra, desde os tempos primitivos, à procura de melhor clima, de melhores terras ou simplesmente de melhores condições de vida. A diversidade cultural é uma realidade e sem prejuízo das várias identidades nacionais ou étnicas, acho que só temos a ganhar com o contacto e conhecimento dessa diversidade, da cultura do outro, do diferente.

Não há máxima que melhor traduza o que aqui procurei expressar do que aquele velho slogan que foi mediático há uns anos - "Todos diferentes, todos iguais!" - e é mesmo disto que se trata quando pensamos nesta nossa União Europeia: somos muito diferentes, sem dúvida, mas todos temos também algo que nos aproxima, que é a nossa humanidade, o sentimento de pertença a algo universal, que nos aproxima e que nos faz ser solidários com o outro... Sim, porque acreditem, nós não existimos sem o outro, seja lá ele quem for!

 

 

 

 

Não mata, mas mói...


CrisSS

Por estes dias fechei mais um ciclo da minha vida, profissional sim, mas também pessoal, porque quer queiramos ou não as duas dimensões estão ligadas... Por conta desse projeto em que andei envolvida não tive tempo para muitas outras coisas, nomeadamente para escrever neste meu blog. E agora aqui estou outra vez a escrever sobre o que estou a sentir, tal como me aconselhou um terapeuta a quem recorri a certa altura da minha vida.

Como todos aqueles de nós, que andam à procura de alguma forma de evoluir como seres humanos aqui nesta existência terrena, também eu tenho procurado aceitar o que a vida me dá e viver em harmonia com o que tenho, e tenho de reconhecer que é bem mais do que têm a maioria das pessoas.

Mas não sou perfeita e de facto ainda não atingi a iluminação, pelo que me doem certas coisas que me continuam a acontecer, as quais eu acho que vou ter sempre alguma dificuldade em aceitar.

Durante o último ano e meio trabalhei num projeto financiado pela comunidade europeia, não interessam aqui os detalhes do mesmo, mas foi um daqueles projetos que veio parar ao meu serviço um pouco por acaso e à revelia da agenda política dos meus dirigentes e que por essa razão não recolheu especial atenção, para não dizer que de facto ninguém teve realmente muito interesse em o desenvolver. Mas lá se criou uma equipa, na qual eu fui incluída, e lá se começou a ver o que era preciso fazer...

A dada altura do processo lá tive que puxar uns galões e passei a ser a gestora do dito projeto, mas tudo muito arrancado a ferros, como é quase tudo na minha vida! Por força deste contexto de algum desinteresse pelo projeto lá consegui trabalhar com alguma autonomia e juntamente com um investigador que foi contratado para o trabalho de campo lá conseguimos desenvolver o plano de atividades previsto, estabelecer uma série de parcerias e criar uma relação de confiança com a coordenação europeia do projeto. Passámos por dificuldades com os procedimentos administrativos e o acesso ao orçamento, não tivemos qualquer apoio político e ainda tivemos que gerir conflitos internos à equipa e mediar relações institucionais, mas no final conseguimos desenvolver um bom projeto e tivemos uma excelente avaliação por parte da comunidade europeia.

Falo-vos disto porque foram realmente 18 meses muito intensos em que trabalhei com gosto e motivada e ao longo dos quais senti que o meu trabalho fazia sentido e que as minhas capacidades e qualidades eram aproveitadas. Foi um período de novas experiências e aprendizagens, ao longo do qual conheci muitas pessoas e tive oportunidade de comunicar de formas muito diversas e de refletir sobre questões essenciais para as nossas sociedades atuais. E foi também um contexto especial em que eu consegui ter algum feedback sobre o trabalho que desenvolvo quotidianamente e sentir que estava a contribuir para algo maior com o meu esforço e dedicação, e principalmente ter algum reconhecimento e valorização do que foi realizado, ainda que não internamente...

Não digo que tenha feito um trabalho excecional de acordo com os padrões de produtividade na gestão de empresas privadas de renome com enormes resultados ou até que tenha sido a primeira vez que eu tenha realizado um trabalho gratificante e importante para a comunidade, mas foi mais uma vez em que eu soube que era possível trabalhar motivada e com objetivos e metas claras a atingir e essencialmente num contexto em que se valoriza e reconhece o trabalho que foi desenvolvido e é isto que faz a diferença!

Podem dizer-me que nesta altura do campeonato já me devia ter habituado a não ser motivada profissionalmente ou a não ter reconhecimento profissional, mas parece que não me habituo... Talvez a culpa seja daquelas teorias todas de gestão da motivação, da liderança positiva e da psicologia motivacional que li quando andava a estudar ou seja do facto de diariamente lidar com empresas jovens onde a equipa é o mais importante e a liderança é eficaz na definição de metas e na orientação e reconhecimento do valor de cada um para o resultado final, mas o que é certo é que me custa esta indiferença e este assumir que:"não fez mais do que a obrigação", ou "é para isso que lhe pagamos" ou "tem sorte em ter emprego, de que se queixa?"

E o pior é que, neste contexto de ausência de liderança e de não definição de novos objetivos, para aqui vamos andar todos, como é habitual, a rivalizarmos, a pisarmo-nos uns aos outros para tentar chegar à confiança dos dirigentes, a lutarmos por uma migalhinha de atenção e de reconhecimento, na esperança de uma oportunidade de podermos utilizar as nossas capacidades e evoluirmos profissionalmente, a competirmos por um novo projeto ou apenas por uma tarefa mais aliciante, no fundo quais animais numa selva agreste a lutar por um bocado de comida... Meus amigos, é isto que se sente a trabalhar na administração pública ao fim de muitos anos e nem falo da questão da progressão na carreira, pois essa está dependente da variável sermos ou não da confiança política de quem decide. 

E é para isto que eu volto agora que acabou o meu projeto...

A dada altura o colega de fora com quem trabalhei dizia-me que se estava a perder uma boa investigadora e eu em tempos também pensei nisso, mas acho que não, porque apesar de eu gostar de ler e escrever e de a aquisição de conhecimento ser para mim um dos maiores valores, não tanto para a inovação tecnológica, mas sim para formar cidadãos no caminho para um mundo mais tolerante, igualitário e de justiça social para todos, o que eu quero mesmo é comunicar, é trabalhar para os outros, é ajudar no que for preciso, é estar lá para fazer e sentir que o que eu faço contribui para mudar alguma coisa.

Por isso vou continuar aqui na minha luta e vou esperar por um novo ciclo, ou até criar um novo projeto, pois apesar de moer, ainda não me mataram...

 

PS: E obrigada André por teres sido a única pessoa, para além dos nossos parceiros, que me fez sentir que valeu a pena!