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auto-terapia



Quarta-feira, 01.08.12

A dificuldade de se ser funcionário público

Sei que não vou ser consensual, sei que me vão criticar, mas tenho que escrever sobre esta imensa dificuldade que é ser-se funcionário público!

 

Já estou a ver e a ouvir as vozes a levantarem-se contra mim e meio mundo a pensar:"Claro, ela é funcionária pública tem que os defender"...

 

Não tencionava escrever tão cedo sobre isto, mas a notícia de que se preparam para pagar 4 euros à hora aos enfermeiros indignou-me e levou-me a pensar mais uma vez que não estou no país certo...

 

É verdade que sou funcionária pública e há alguns anos atrás eu não teria dúvidas em dizer-vos que com muito orgulho. Fui uma das jovens que, recém-licenciada nos anos 90, imbuída de um espírito de cidadania e dever cívico optei por fazer um estágio na Câmara de Lisboa, pois pensava eu, na altura, poderia contribuir para o desenvolvimento local e planeamento urbano, temas que à época me motivavam. Não era aquela a minha única opção, não joguei pelo seguro, não procurei o facilitismo, não queria um emprego para a vida, mas queria, sim, aplicar o que tinha aprendido na minha licenciatura e ajudar as populações, no fundo queria um trabalho na minha área de interesse e especialização, que é o que todas as pessoas que tiram um curso superior querem fazer.

 

Pois é aqui que está, na minha modesta opinião, a grande falácia da argumentação contra a função pública, dizendo que há excesso de funcionários e que ganham demais. Isto só tem eco na opinião pública porque as pessoas revelam uma grande incapacidade de refletir e analisar a nossa história recente. Não sei se sabem, mas antes do 25 de Abril éramos um país analfabeto, mais pobre ainda e cujo sector de actividade económica predominante era a agricultura. Não havia empregos, a não ser, nos campos. Com o investimento na educação pública destas últimas décadas conseguimos em poucos anos ter níveis de escolaridade próximos da média europeia e um conjunto de profissionais licenciados inexistentes até aí que vieram a constituir a nossa classe média tão falada, mas onde é que se iriam empregar estes novos profissionais num país sem indústria ou sector empresarial? Onde arranjariam emprego todos estes jovens a quem foi dito pelos pais: "Filho, tira um curso superior para teres um bom emprego e um bom salário!" Acho que todos nos lembramos de ter crescido a ouvir isto. Quantos pais se sacrificaram para que os filhos pudessem estudar, para ganharem melhor, sempre a pensar que assim escapariam a um destino de pobreza e trabalho sem compensações na agricultura ou nas fábricas?

 

Como é óbvio o Estado empregou a maioria destes licenciados! Cresceu assim o que chamamos de administração pública e eu diria que cresceu à medida que cresceu a nossa democracia e que se desenvolveu o nosso país. Foram trabalhar como funcionários públicos: engenheiros, arquitectos, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, juristas, advogados, economistas, médicos, enfermeiros, professores, todos aqueles que puderam estudar e assim beneficiar da evolução económica, cultural e social do nosso país nestes 30 anos. São tudo profissões muito válidas e que são fundamentais para o funcionamento normal de uma sociedade, de um país! São os professores dos nossos filhos, os médicos dos nossos hospitais, os mais variados técnicos que dão resposta às nossas necessidades, enfim que prestam um serviço público...

 

Quem os empregaria se não fosse o Estado? Que fábricas ou empresas conheciam vocês na década de 80 e 90 que dessem trabalho a licenciados? Ainda hoje não são muitas. Portanto, a administração pública cresceu e tornou-se no que conhecemos hoje, para o melhor e para o pior...

 

Se me arrependo de ter ido trabalhar para a função pública? Hoje sim, mas naquela altura não! Hoje sim, porque ganho menos do que todos os licenciados da minha idade que conheço e estão no privado, porque não tenho aumentos condignos, porque tenho a progressão na carreira congelada à 10 anos, porque ganho apenas mais 200 euros do que ganhava à 20 anos apesar de ter continuado a estudar, porque trabalho em auto-motivação, sem reconhecimento ou valorização profissional, enfim, porque sou uma privilegiada na opinião generalizada e mereço todos os cortes e penalizações por via da crise!  Mesmo assim, posso dizer-vos que conheci muitos bons trabalhadores na função pública, aliás a maioria, porque senão garanto-vos o sistema não funcionava. Os incompetentes, os maus profissionais, não são a maioria e existem na mesma proporção dos outros sectores de emprego da sociedade. Agora se a administração pública podia funcionar melhor, é claro que sim, sou das principais críticas e posso apontar rapidamente vários aspectos decisivos para essa melhoria. Desde logo, a gestão! Todas os empresários sabem que a gestão de pessoal é fundamental para o sucesso de uma empresa. A escolha dos dirigentes, directores, chefes, etc, é decisiva para se atingir objectivos e ter produtividade. A capacidade de motivar e de comunicar as metas do serviço aos trabalhadores é crucial. Ora se isto são quase verdades "la palisse" porque é que na função pública não se exige a sua aplicação? Porque é que se acha que os funcionários públicos têm que ser produtivos sem terem objectivos, sem tomarem parte na definição das metas, sem muitas vezes lhes ser exigido nada, pois os seus dirigentes não se comportam como tal e não têm qualquer qualidade de chefia?

 

Sei que esta é uma questão complexa e que não vou conseguir aqui discuti-la em profundidade, mas só queria deixar-vos uma nota para reflexão... Muito de nós temos filhos, que estão a estudar e a quem dissemos que deveriam tirar um curso superior e que qualquer dia aí estarão à procura de um emprego... que não há! E podem ser jovens médicos, enfermeiros, professores, o que for, não será fácil para eles arranjar emprego. Terão que ser muito bons, excelentes mesmo e assim talvez consigam... Para todos os outros, os medianos, que são a maioria, só haverá duas hipóteses - criarem a sua própria empresa ou emigrar - duas possibilidades para as quais não os educámos, não os preparámos, pois o que lhes dissemos é que haveriam de ir trabalhar por conta de outrém...

 

Talvez só nessa altura tenhamos a capacidade de compreender a importância que teve o emprego na administração pública até aqui! E talvez demos connosco a pensar:"Que pena o meu filho já não ter hipótese de ser funcionário público"...

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 14:33



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