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auto-terapia



Segunda-feira, 10.06.13

Memórias em dia cinzento...

Hoje estive todo o dia deprimida... Pensando bem não foi só hoje, ontem também já estava, e secalhar antes de ontem também, mas isso não interessa. O que interessa é que hoje precisei mesmo de voltar a alguma zona de conforto da minha infância, algum sítio onde eu me senti mesmo bem no passado, onde fui acarinhada, mimada, cuidada... E fui parar aos meus avós!

 

Todo o dia andei por lá em pensamento. Andei pela aquela casa, andei por aqueles momentos, lembrei as melhores recordações daqueles dias passados com o meu avô e a minha avó quando eu era uma menina pequenina.

 

Lembrei-me, principalmente, da minha avó, que era uma força da natureza, uma mulher de armas, um pouco dura, mas que cuidava de mim e da minha irmã com todo o carinho do mundo.

 

Lembro-me tão bem de cada vez que chegávamos àquela casa, entrarmos a correr pela cozinha e pararmos em frente à chaminé do fogão, à espera, e ela lá vinha e dizia "Sim, o menino Jesus deixou cá uns chocolatinhos para vocês!" e lá estavam os chocolates da Regina que marcaram para sempre a minha infância, pois os meus avós viviam ao pé da fábrica, no Alto de Sto. Amaro e o cheiro a chocolate era uma constante.

 

Lembro-me tão bem das manhãs, ao pequeno-almoço, quando a minha avó me tentava convencer a beber o leite em pó (que eu detestava) e por fim lá desistia e me ia fazer uma farinha maizena, com gema de ovo, que eu comia lambendo os beiços.

 

Lembro-me de estar à janela (era um r/c) e todas as vizinhas passarem para cumprimentar as netinhas da D. Belmira e lembro-me da varina aparecer à janela para vender o seu peixe que a minha avó comprava à janela especialmente para nós.

 

Lembro-me da minha avó a cantar fado, tinha uma voz lindíssima, todos diziam que parecia a Amália...

 

Lembro-me da minha avó me cortar a fruta para eu comer aos pedacinhos, com um garfinho, juntamente com a sopa que eu detestava!

 

Lembro-me de ela expulsar o meu avô da sua cama, nas noites em que dormíamos lá em casa, para que eu e a minha irmã lá coubessemos juntamente com ela, e ali ficávamos na risota a ouvir o relógio de cuco que não nos deixava adormecer.

 

Lembro-me dos passeios de elétrico para irmos ao Pastéis de Belém e de descermos até ao Calvário a pé a cumprimentar toda a gente e a entrar em todas as lojas.

 

Não pensem que a minha avó foi sempre muito feliz e uma felizarda com uma vida descansada. Da infância dela não sei muito, mas sei que passou por bastante depois de casada, pois o meu avô ficou com tuberculose pouco tempo depois de casar e esteve doente numa cama durante dezassete anos! Dezassete anos, esta senhora tratou do marido em casa, e por precaução não pode criar o próprio filho, que foi viver para casa de uma tia ali ao pé. Não sei, nem consigo imaginar, o que a minha avó sofreu, tudo porque ela passou, mas sei que apesar de tudo isso ela sempre teve uma força inabalável e quando o meu avô se curou e pode finalmente arranjar trabalho, ela foi também trabalhar para a Santa Casa da Misericórdia a cuidar dos outros, que foi o que ela sempre fez de melhor.

 

A minha avó só teve aquele filho e aquelas netas, que foram sem dúvida as pessoas mais importantes da sua vida, mas poderia ter tido mais se a vida lhe tivesse corrido doutra maneira.

 

A minha avó não teve uma vida fácil e mesmo assim conseguiu ser uma das pessoas mais importantes da minha infância, juntamente com o meu avô de quem eu tenho também inúmeras memórias, como as tardes na Tapada da Ajuda a apanhar pinhões que depois ele ia partir metodicamente num banquinho no quintal para nos dar a comer até enjoarmos!

 

O que mais me dói agora que volto a estas memórias é saber que no final não acompanhei a minha avó na sua doença, pois ela terminou os seus dias com arteroesclerose cerebral e não reconhecia ninguém. Não é essa a memória que eu quero ter da minha avó, pois aquela senhora que começou a perder a memória aos sessenta e poucos anos e que me confundia com o meu pai quando ele era pequenino é apenas uma sombra do que foi a minha avó... 

 

Sabes avó, eu era uma adolescente e não sabia o que era a vida, nem quão importante é nos darmos aos outros e retribuirmos aquilo que nos deram. No fundo resume-se tudo a isto: darmos aos outros o máximo de nós, todo o amor que temos, sem esperar retribuição, acho que isto é a essência da vida. E claro, perdoarmos! Perdoarmos aos outros e, principalmente, perdoarmo-nos a nós pelo que não fizemos ou pelo que fizemos mal...

 

Agora que já deixei de chorar e que o nó da garganta se desatou, finalmente, vou ali experimentar fazer uma receita da minha avó que nunca fiz: pastéis de massa tenra! É que faltou dizer-vos o mais importante: a minha avó gostava de cozinhar e eu também gosto muito!

 

Acho que saí a ela...

 

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por CrisSS às 19:54


2 comentários

De Francisco a 07.08.2013 às 16:09

Olá Tina!
Que texto tão bonito :))
bjs
f

De CrisSS a 09.09.2013 às 12:31

Obrigada Francisco,

Foi um dia nostálgico, que resultou nesse texto, ou o blog não se chamasse auto-terapia...

Beijinho grande!

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