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auto-terapia



Quarta-feira, 06.03.13

A loucura da normalidade

Aqui há uns dias vi um filme que aconselho. Mas não pensem que é um daqueles filmes com um argumento fantástico e representações de óscar. Não, não é esse o caso. É apenas um filme que aborda de forma simples um tema que me é muito caro e que me preocupa bastante atualmente: o tema da saúde mental, ou dito de outra forma, o tema do equilíbrio psicológico frágil que caracteriza todos os seres humanos, sejam homens ou mulheres.

 

O filme em questão chama-se (em português) - "Guia para um final feliz" - e é este título a sua principal fragilidade, mas que eu percebo, pois é importante deixar no final uma mensagem de esperança, ou se quiserem, de possível retorno à normalidade. Mas de que trata afinal o filme? O filme fala-nos de um homem que depois de um episódio triste no seu casamento, acaba não só divorciado mas também internado numa instituição para doentes mentais durante algum tempo. Uma daquelas clínicas à americana (cá não temos nada daquilo, ou se temos é só para uma elite e eu desconheço) para onde as pessoas vão recuperar dos momentos mais ou menos difíceis porque passam na vida: mortes, divórcios, doenças graves, dependências várias, depressões, etc...

 

E porque vos estou a falar disto? Porque me preocupa o elevado número de pessoas que eu vejo à minha volta que estão a sofrer, porque a dada altura algo se quebrou dentro delas e parece não ser possível de consertar... Falo das pessoas que conheço e que estão deprimidas, ou têm ataques de pânico, ou vivem com insónias, tonturas e vertigens, ou não conseguem comer, ou comem demais, e que acabam por se sentir desesperadas, diminuídas e ocultam a sua fragilidade, o seu desequilíbrio, como se fosse vergonhoso não estar feliz, não estar bem, não ser "normal"!

 

E depois, durante um jantar, ou na fila de espera de um consultório, ou noutro momento qualquer, de repente desabafam, não aguentam mais, e dizem que estão há não sei quanto tempo a tomar anti-depressivos, que já foram ao psicólogo e que já não sabem o que mais hão-de fazer para que tudo volte a ser como antes, para que voltem a estar "normais".

 

Mas o que é isto da normalidade? Estarão todas as outras pessoas equilibradas e em perfeita sintonia com o mundo e com os outros? Não me parece e acho que esta ideia do equilíbrio psicológico permanente, do estar a 100%, é mais um mito do que uma realidade. Porque a maioria das pessoas que conheço não está a 100% e podem até aparentar uma alegria de viver e um aparente bem-estar, que na prática não sentem e à noite, quando estão sozinhas, sofrem, tal como os já catalogados de depressivos, psicóticos, neuróticos e desequilibrados em geral!

 

No fundo, o que eu quero dizer é que todos nós, principalmente, os mais sensíveis, ou aqueles que tiveram algum tipo de abandono ou negligência na infância, ou simplesmente aqueles que passaram por uma dor ou emoção profunda, sabem o que é não estar a 100% e tentam viver com isso da melhor forma possível...

 

Que a vida não é fácil, já nós sabemos, mas passar por certas situações, sem ajuda, sem amigos, sem família e, na maioria dos casos por dificuldades de acesso, sem apoio de um especialista, tem custos que às vezes não calculamos seriamente e que desvalorizamos, fazendo com que muitos destes desequilíbrios passem de temporários a permanentes!

 

E é aqui que este filme me comoveu, porque mostra de forma muito bonita que é possível ultrapassar uma crise destas, com ajuda de fontes tão variadas como a família, os velhos amigos, o parceiro de doença, o psicólogo e claro novos amigos, ou melhor novas pessoas que aparecem na nossa vida e que se nós conseguirmos estar atentos e abrir-lhes a porta do nosso coração podem fazer a diferença e ajudar-nos a alcançar o tal "final feliz"...

 

Mas, atenção, o final feliz pode não ser o desejado "voltar à normalidade"! Como verão no filme, pode ser uma coisa nova, completamente diferente, pode ser descobrir em nós emoções que nem suspeitávamos, abandonar obcessões antigas, encontrar capacidades escondidas, demonstrar sentimentos e fazer coisas que nunca fizemos! Viver a vida de forma diferente e principalmente aceitar que nunca mais vamos estar a 100%, se é que alguma vez estivemos...

 

Falo por mim, eu cá acho que estou para aí a 70% e isto nos meus melhores dias!

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por CrisSS às 15:39


2 comentários

De nelia a 06.03.2013 às 23:04

Tambem fui ver esse filme, porque alguem me disse que era de facto muito bom. Gostei, vivi de perto uma historia muito semelhante, mas bem mais negra e dolorosa. Foi uma provacao que a vida me colocou, que gracas a mim, familia, amigos, colegas de trabalho...e acima de tudo, ao sentimento mais profundo que podemos sentir por alguem...o amor...de facto, ajudou-me a aguentar o tranco e a ultrapassar barreiras que julguei inultrapassaveis...
A minha maxima sera sempre, O que nao nos mata, torna-nos mais fortes. Peco desculpa, pela falta de acentuacao, cedilhas e afins, mas ainda nao os encontrei nesta mer... de tablet. Bjs e continua, porque as tuas palavras, sao uma verdadeira terapia.

De CrisSS a 07.03.2013 às 11:39

Querida Nélia, por acaso, ao escrever este post lembrei-me de ti e de muitas outras amigas e amigos que já tiveram depressões, ataques de pânico e afins e que continuam a viver com isso cada uma à sua maneira, mais ou menos bem...
Acho que a tua forma de lidar com isto, falando sobre o assunto, é excelente,e foi por isso que também escrevi este post, para que se fale sobre e não se esconda este problema! Um beijinho grande para ti e todos os teus!

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