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auto-terapia



Quarta-feira, 05.09.12

A difícil arte da auto-realização

Durante estas férias um dos temas sobre o qual pensei e partilhei ideias foi o da evidente falta de realização pessoal da maior parte das pessoas que conheço, incluindo eu própria. Não é um tema fácil, pois implica várias questões que vão desde a forma como a importância da auto-realização nos foi inculcada na infância até à discussão sobre a atual sociedade de consumo e a criação de necessidades até aqui inexistentes.

 

Para cada lado que me vire ouço colegas, amigos, conhecidos dizerem que não estão realizados, que não se sentem felizes, que sentem um imenso vazio, enfim, que não gostam da vida que levam! Uns conseguem ser mais objectivos e identificar porque se sentem assim, mas a maioria apenas se sentem perdidos, à deriva, à procura de alguma coisa ou à espera que algo aconteça... No fundo, parece que a vida não lhes pertence, que não são donos dela, que não a podem controlar, que não têm capacidade para mudar as coisas. E isso é o mais difícil: fazer mudanças!

 

Às vezes parece que é apenas uma sensação de que nos falta alguma coisa, mas não sabemos o quê, ou pior ainda não conseguimos vislumbrar forma de saber o que queremos realmente fazer!

 

No meu caso pergunto-me como é que cheguei aqui e fico surpreendida quando olho para o passado e me lembro daquela rapariga que parecia sempre ter resposta para tudo, cheia de certezas, e que se transformou na atual mulher cheia de dúvidas... Como é que passei da estudante confiante que afirmava convicta que queria ser socióloga e ajudar a sociedade (sem saber muito bem o que isso significava) para a técnica superior deprimida e muito pouco realizada profissionalmente? Não sei bem a resposta. Logo à partida teria a tentação de culpar os vinte anos de trabalho na administração pública, mas será que foi só isso? Foi a falta de motivação no meu local de trabalho que me mudou ou fui eu que me fui conhecendo melhor a mim própria e percebi que as minhas escolhas profissionais aos vinte anos não foram as mais acertadas e que deveria ter tido coragem para mudar!

 

Mas o que me deixa perplexa é porque é que umas pessoas ficam deprimidas porque não se sentem realizadas com o que estão a fazer e outras são capazes de fazer toda a vida o mesmo trabalho rotineiro, sem desafios, sem compensações e nunca se queixam.  Por exemplo, porque é que as pessoas que trabalham no campo toda a vida a fazer a mesma coisa não têm depressões, ataques de pânico e afins...

 

Há uns anos atrás, quando beneficiei do privilégio de dar aulas a estudantes universitários, tive oportunidade de lhes falar sobre a "Pirâmide das Necessidades" de Maslow, tema que deu azo a amplos debates sobre a satisfação das necessidades de realização pessoal, que são o topo da dita pirâmide. Dei comigo no outro dia a pensar que a resposta estava aí, pois antes de vivermos nesta sociedade de consumo, as nossas necessidades situavam-se apenas aos níveis básicos - alimentação, abrigo, segurança, e depois destas satisfeitas, então precisávamos de estima, afecto, amor, amigos e pouco mais. Agora temos amplas necessidades que nos fazem sentir constantemente em privação relativa em relação àquilo que ainda não temos e que gostaríamos de obter. Para além das necessidades materiais, também fomos bombardeados com o discurso sobre a realização pessoal, portanto como diria Maslow só nos sentimos bem psicologicamente quando nos sentimos autorealizados, o que implica que antes temos que nos sentir apreciados, reconhecidos como importantes nas estruturas onde estamos inseridos, sejam elas a família, o trabalho, o que for, e só nessa altura conseguiríamos atingir o nível máximo da pirâmide e desenvolver os nossos potenciais, sentirmo-nos úteis e "sermos tudo o que somos capazes de ser".

 

Esta última frase diz tudo e acho que explica porque é que algumas pessoas se sentem realizadas - porque se calhar estão a ser tudo o que se sentem capazes de ser e não têm expectativa de ser outra coisa... Alguns, como eu, estudámos, inserimo-nos em instituições, empresas, etc, e criámos muitas expectativas que foram defraudadas porque a sua concretização não dependia de nós. E assim o tempo foi passando e um sentimento de inutilidade foi-se apoderando de nós, uma sensação de que o nosso melhor não estava a ser aproveitado, de que tínhamos um potencial que se estava a perder e a frustação daí decorrente foi inevitável...

 

É realmente muito importante sentirmo-nos realizados e esse sentimento de auto-realização pode advir de várias áreas da nossa vida, desde que elas estejam perfeitamente identificadas para nós: algumas pessoas retiram essa realização pessoal dos filhos, da família, outras do voluntariado que praticam, outras da relação amorosa que têm, outras da profissão que desenvolvem e por aí adiante, ou seja, se identificarmos aquilo que nos faz sentir úteis e capazes sentimo-nos realizados!

 

Se não identificamos na nossa vida atual as áreas em que atingimos a realização pessoal, então, a mudança impõe-se! E aqui o problema é outro: porque é que uns são capazes de mudar a sua vida em dois tempos e partir para outra, como se diz, e alguns, como eu, têm tanta dificuldade em mudar...

 

Se eu não estou realizada porque é que não mudo a minha vida? Ando aqui a pensar em faze-lo, mas ainda não me decidi. Mas há-de chegar o dia em que vou conseguir, mesmo porque ainda não vos mostrei tudo aquilo que sou capaz de ser!

 

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por CrisSS às 14:05


4 comentários

De Paula Rodrigues a 05.09.2012 às 17:04

Parabens pelo teu resumo, parabens por partilhares e parabens por estares a dar passos para mudar (ignite, blogue,..) ! Parabens! Apenas lembraria que o afeto nao vem depois da fome e seguranca, estudos vieram demonstrar que tambem se morre por falta de afeto logo em recem nascidos e sabemos no\'s que muitos se matam por falta de afeto das mais diversas formas, desde os peritos em correr riscos, ate\' aos que morrem todos os dias 1 bocadinho (criando doencas), em espacos familiares, de trabalho, ou outros, onde sao infelizes! Bjs

De CrisSS a 06.09.2012 às 12:17

Obrigada Paula pelas tuas palavras! Sem dúvida o afecto é essencial, mas mesmo que tenhamos muito afecto, às vezes, não nos sentimos realizados e a falta de realização pessoal, como sabes, também nos faz adoecer... Era sobre isso que eu queria falar. Bjs.

De sitiodasaguasformosas a 06.09.2012 às 20:03

Há que ter coragem , um plano realizável e já tem condições para a mudança . Na minha vida já fiz essa mudança por insatisfação pessoal duas vezes e estou disposta e fazê-la as vezes que forem necessário, só tenho uma vida para viver! Será pior se ao chegar ao fim me sinta insatisfeita e revoltada comigo propria, por não ter tido a coragem de viver os meus sonhos.
Claro que não somos iguais, cada um de nós tem a dose e motivação diferente, e quando existe uma familia por trás e precisar de nós é muito mais dificil.
Cris, dei somente a minha opinião sobre o assunto, cada um tem direito ao livre arbitrio, mas este conselho, eu dou : seja feliz , bjs
Inês

De CrisSS a 11.09.2012 às 14:10

Obrigada pelas palavras de incentivo Inês!

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