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auto-terapia


Quinta-feira, 16.06.16

Acreditar no amor!

Vem este post a propósito do amor... e da celebração desse amor por parte de duas pessoas muito especiais e que me são muito próximas. É também uma reflexão sobre a coragem de amar e permanecer juntos na vida apesar de todas as dificuldades que isso acarreta... Mas é principalmente um texto sobre a beleza do amor, a importância da entrega ao outro e a necessidade de autenticidade na relação a dois.

Tudo à nossa volta nos faz ter sentimentos ambivalentes sobre o amor: tanto ficamos desesperados pelos supostos falhanços dos casamentos que nos fazem desacreditar no amor, como assistimos nas redes sociais e nos media a demonstrações extremas de amor e de afeto até ao final da vida que nos deixam de pernas bambas e de coração aos saltos. Tanto oscilamos entre estados de alma imensamente românticos que nos deixam agarrados à televisão a ver pares enamorados, com um lenço nas mãos e lágrimas nos olhos, como juramos nunca mais voltar a amar e desistir de vez desse grande animador de alma que é a paixão. E tudo isto é o amor!

Parece-me a mim que o amor é inevitável e que é impossível escapar-lhe. Acho até que não amar não é desejável, nem saudável e que o amor é o grande desígnio da humanidade. Quem não ama, não é humano e não pode estar equilibrado, pois também não é amado, por isso não está completo. A capacidade de entrega ao outro, de dádiva, de compaixão, tudo isto são manifestações do amor e são em última instância as pedras de toque da felicidade...

E aqui é que começa a parte de que nós não gostamos tanto: a felicidade não é imediata, é construída com o amor, diariamente, nos pequenos gestos e momentos do quotidiano, e implica a tal entrega e disponibilidade para o outro que dá algum trabalho, para não dizer muito... E para ajudar à festa, esse amor que nos dá tanta felicidade, também nos traz outra emoção, pasme-se, que é o sofrimento... e deste é que nós não gostamos mesmo nada!

Mas meus amigos, lamento informar-vos, é impossível amar sem sofrer. E não estou a falar da rejeição ou de quando o amor termina. Estou a falar de vermos o objeto do nosso amor triste, deprimido, doente ou afastado de nós, pois amar a sério implica sempre sofrer quando o outro sofre e quem não sente esse sofrimento é porque na realidade não ama... Amar alguém, dar-mo-nos ao outro, tem sempre como base o apego, tudo o que demos e recebemos do outro, que cria uma ligação indelével que nos une e nos torna vulneráveis, pois como diz o Principezinho, é o tempo que perdemos a cuidar de alguém e a criar um laço que torna essa pessoa especial e quando não a vemos sofremos...

Portanto, não há rosa sem espinhos e com a dádiva de amar alguém e ser amado vem também muito trabalho: persistência, perseverança, aceitação, tolerância, compreensão e alguma frustração e sofrimento.

E é por esta razão que queria homenagear duas pessoas que casam hoje, ao fim de alguns anos de vida em comum, com dois filhos e muito amor! Quero homenageá-los por várias razões: primeiro, pela coragem, pela persistência, pela aprendizagem mútua e principalmente pela entrega e compromisso com a relação. Sim, porque não julguem que é tudo maravilhas, que não houve desaires, que não houve lágrimas, discussões e amuos. Claro que houve e haverá sempre, pois somos humanos e é dessas matérias que somos feitos - contradições, traumas, desequilíbrios, inseguranças - mas o que importa é a nossa capacidade de perdoar, de compreender, de evoluir, de aceitar o outro como ele é e ao mesmo tempo tentar mudar, esforçar-mo-nos por sermos melhores, sempre, por mais difícil que possa ser...

Acredito que só assim uma relação possa durar. Acredito que o amor também é construído e que essa capacidade de continuar a acreditar nesse amor, depois dos problemas financeiros, das zangas, das crises pessoais, das frustações profissionais, das perdas familiares, é o segredo para uma relação que permanece e que cresce ao longo do tempo.

Claro que esse amor tem que ser alimentado e que tem que continuar sempre a haver prazer em viver a dois, porque de outra maneira não vale a pena. Cumplicidade é fundamental, rir juntos, falar, conversar, intimidade plena, são peças chaves da relação. Companheirismo, amizade e confiança também são fundamentais. Não acredito em relações em que não se respeita a diferença do outro, em que ambos se anulam e fingem ser o que não são, pois para uma relação funcionar ambos têm que encontrar espaço para crescer como pessoas individualmente e ao mesmo tempo voltarem sempre a encontrar-se no caminho em conjunto. Há que dar espaço ao outro para ser aquilo que quiser, desde que esse futuro imaginado tenha sempre em pano de fundo a vontade de partilha e de comunhão com o outro. Sem dúvida que isto é o mais difícil e que às vezes se traduz em altos e baixos na relação, mas acredito que desde que haja amor, com diálogo e com tempo, o equilíbrio pode ser conseguido.

A verdade é que a vida é uma caixinha de surpresas, passe o cliché, e temos que aceitar tudo o que ela nos trouxer - o bom e o mau - pois se não o fizermos é tudo mais complicado. A boa notícia é que somos nós também que construímos a nossa vida, na medida em que fazemos escolhas e optamos por ter uma determinada atitude perante o que nos vai calhando em sorte. É aqui que nós podemos decidir que é muito mais fácil o caminho se este for feito a dois e é por isso que o amor é sempre a panaceia universal para as coisas menos boas que nos vão acontecendo e a única fórmula para se viver uma vida plena e rica, seja o amor em casal, seja o amor de filhos, pais, família, amigos, animais, no fundo o amor universal, aquele que eu acredito que é a energia divina...

Por isso, minha querida irmã, meu querido cunhado, muitos parabéns por continuarem a acreditar na força do vosso amor um pelo outro e pelos vossos filhos! Nunca desistam, nunca desesperem e acreditem sempre que a dois é tudo muito melhor!

 

 

 

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por CrisSS às 12:12

Domingo, 13.03.16

Parabéns "filhote"... da tua "mãedrasta"...

Hoje o meu "filhote" André faz 18 anos! Sim, o meu "filhote", porque ele apesar de ser o meu enteado, também é um pouco meu filho, é um filho do coração! 

Lembro-me perfeitamente que foi na segunda ou terceira vez que saí com o teu pai, que ele muito nervoso diz que tem uma coisa para me contar: "- Tenho uma coisa para te dizer..." E eu apreensiva com o que aí viria, digo-lhe que avance: "- Sabes, tenho um filho... E eu -"Áh, ok, é só isso, tudo bem!" E percebi desde logo o quão importante eras para o teu pai e o imenso sofrimento em que ele estava por tua causa... O que eu não percebi logo nesse dia foi o papel que irias ter na minha vida!

Conheci-te pouco tempo depois, pois foi muito importante para o teu pai que no pouco tempo livre que ele tinha pudesse estar com as duas pessoas mais importantes para ele naquela fase da sua vida. Eras um bébé lindo, muito fofinho, com aquele cabelo à tigelinha, mas um pouco desconfiado (como o teu pai), muito chorão e que não comia absolutamente nada (o que sempre me fez muita confusão como sabes) e eu é claro entrei em força nesta relação com todo o meu instinto maternal ainda não utilizado...

Sim, porque no meu caso, a figura clássica da madrasta não se aplicou (espero que concordes) e nunca senti que tinha de te afastar do teu pai ou que tinha de competir contigo pelo afecto dele e muito menos como já ouvi inúmeras histórias, achei que o teu pai iria gostar menos dos meus filhos com ele do que de ti... Não tive dúvidas de que podíamos ser todos uma família, diferente sim, mas todas o são, e que os laços que estávamos a criar seriam para sempre! É assim que eu sou, como sabes, e não me arrependi de nada do que fiz em relação a ti, a não ser talvez de não ter ainda tido mais tempo contigo, mas foste sempre o meu "filhote" emprestado... E eu "emprestei-te" toda a minha família, por isso passaste a ter mais tias, mais avós e muitos, muitos, mais amigos, que te adotaram sem reservas!

Durante muito tempo foste o nosso bébé - quando podíamos usufruir de ti - e juntamente com a Marty (que foi o teu primeiro cão e que te adorava) foste alvo de todo o nosso afeto e pude testar contigo todas aquelas teorias que eu lia nos manuais de educação e pedagogia e nos trabalhos das minhas alunas. Gosto de pensar que te ajudei a ter algum gosto pela leitura, quando impus ao teu pai a leitura da história para dormir. E sei que não era bem a prenda que tu querias, mas foram muitos os livros que te ofereci ao longo destes anos! Gosto de pensar que temos algumas coisas em comum, como gostar de banda desenhada, mas o teu sentido de humor é o do teu pai, sem dúvida! Sei de algo que temos em comum: o amor pelos animais e nisso és muito mais parecido comigo do que o meu próprio filho... Chateei-te muito por causa da alimentação e preocupei-me muito com isso, mas felizmente, hoje em dia comes que nem gente grande e só tenho pena que não gostes de fruta...

Sempre foste uma criança incrível, muito forte e corajoso! A tua paixão era e é o futebol... Ainda te estou a ver a correres com a bola nos pés pelos corredores da casa de Massamá e depois aqui. Conseguiste que eu que não ligava nenhuma ao futebol fosse passar tantas manhãs e tardes a ver os teus jogos e vingança suprema ainda puseste o bichinho do futebol no teu irmão! E como me fazia confusão que tu tão pequenino e com tanta coragem entrasses naqueles campos, no meio dos outros sempre maiores que tu, e ali andasses a fintar meio mundo com a bola nos pés, sem medo de te aleijares! O pior depois era desinfectar as feridas...

Também me lembro de como tinhas medo do mar e de te ensinar a boiar e a nadar no nosso Cabril, onde aprendeste a superares-te e mais uma vez corajoso até saltavas das pedras, para agora mais crescidinho chegares a mergulhar de tão grandes alturas!

Sempre foste muito inteligente e a escola para ti não encerrou dificuldades de maior. Fiquei tantas vezes surpreendida com o pouco que estudavas e a forma como mesmo assim conseguias tirar boas notas! Mas sabendo as tuas capacidades não duvido que podes alcançar o que quiseres se apenas te dedicares um pouco mais...

Nunca duvides de que és especial e que a timidez de que te queixas agora e que herdaste do teu pai, um dia vai ser valorizada por aquela miúda/mulher também especial que saiba ver para além do que és por fora (giríssimo) e que te olhe por dentro e veja o quão maravilhoso és! E não desesperes porque se até o teu pai conseguiu encontrar quem o aturasse também há esperança para ti...

Muitos parabéns "filhote" por estes teus 18 anos e não julgues que já chegaste lá, pois estes são apenas o princípio de tudo o que ainda aí vem e que será muito melhor!

Adoro-te!

 

PS - Recado da "mãedrasta": E agora que tens cada vez menos tempo não te esqueças de nós, principalmente do teu irmão que te idolatra!

 

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 14:24

Sexta-feira, 04.03.16

Adeus Marty... até sempre!

A minha Marty já não está entre nós... A minha Marty era o "mê" cão! O cão mais lindo do mundo (como eu lhe dizia...). E agora já não está aqui comigo e hoje ao acordar senti essa ausência em toda a casa e em todo o meu ser...

A Marty era um cão de água espanhol ou perro turco, como a veterinária insistia em chamar-lhe. Não conheciámos mais nenhum aqui nas proximidades e apenas uma única vez encontrámos uma cadela igual, mesmo igual, preta e branca, na estação de serviço da Ponte Vasco da Gama. E nem queríamos acreditar! Apesar de estarmos sem a nossa Marty, falámos imenso tempo com os donos e trocámos experiências e características dos nossos cães, que eram mesmo muito parecidos. Nunca mais vimos nenhum igual! Por isso a Marty era única! Por isso e por outras coisas...

A Marty veio à nossa vida por intermédio de uns amigos, grandes amantes de cães e de todos os animais, que a trouxeram de Sevilha, onde ela estava numa feira de adopção. Trouxeram-na para casa, deram-lhe banho, trataram dela e iniciaram a sua busca por uns donos, pois eles já tinham os seus cães e acharam que a Marty merecia uns donos especiais, só para ela. Apresentaram-na com o seu nome - "Martírio Del Gran Poder" - e com um cartão de visita onde se dizia que ela era - "Hija de la Perra de Huelva" - nascida na Andaluzia, cidade de Sevilha, a 1 de Abril de 2002, ilustrando o quão importante ela era e viria a ser mais ainda nas nossas vidas...

E foi assim que a Martírio chegou a 22 de julho a Portugal e umas semanas mais tarde à nossa vida, por graça de uma amiga que achou que este seria o cão ideal para mim e para o Mário com quem eu estava já a partilhar a vida. Fomos vê-la e, claro, foi amor à primeira vista, ficámos com ela e chamámos-lhe Marty, pois o nome de Martírio, pareceu-nos premonitório demais.

A Marty já tinha cerca de 6 meses quando a adoptámos e num cão isso faz muita diferença. É um pouco como os primeiros anos de desenvolvimento de um bebé, que são decisivos para a formação da sua personalidade. Com a Marty passou-se o mesmo e ela tinha todos os tiques de um cão que foi adoptado e cujo passado encerra uma história de abandono e algum sofrimento. Tornou-se um cão inseguro, medroso, mas também super-protetor, era a minha sombra, completamente dependente do nosso afeto e atenção...

A Marty era também um cão pastor. Ao contrário do que o nome da raça indicava não era uma amante de banhos, embora adorasse deitar-se na água para se refrescar. Mas o que ela gostava era de campo, de erva, de correr livre, de preferência atrás de alguém ou de outro cão. Agia como se estivesse a guardar um rebanho, impedindo os intrusos de se aproximarem e mantendo as suas ovelhas bem protegidas, não hesitando em dar uns toques de aviso se alguém se aproximasse de nós de repente. Mas era muito meiga, extremante carente e todos os nossos amigos que com ela privaram sabem o quão chata ela podia ser, quando queria festas e atenção. 

Era um cão muito inteligente (como todos, mas esta era a minha cadela) e nós conseguíamos comunicar de várias formas. Ela percebia tudo o que eu queria que ela fizesse e conseguiu arranjar forma de me comunicar o que precisava e em último caso se a comunicação falhasse, insistia em ganir até conseguir o que queria. E ganhava sempre!

A Marty era maravilhosa e veio também às nossas vidas para nos ajudar a sermos pessoas melhores... Como ela não era perfeita (como ninguém é) e tinha uns donos com a mania da perfeição, nem tudo foi fácil e cometemos muitas injustiças com a Marty, das quais nos arrependemos profundamente, mas sei agora que essa foi a sua missão... Como me doem as vezes em que lhe disse que ela era uma chata que não me largava, em que não me apeteceu levá-la à rua a dar grandes passeios, em que lhe dei uma palmada porque se atirava a toda a gente na rua ou quando ladrava furiosamente sempre que tocavam à campainha...  Tudo isto ela aguentou, porque era assim que ela era e não sabia ser diferente, nem conseguia mudar e cabia-me a mim aceitá-la como ela era, sem críticas, sem julgamentos, com paciência, tolerância e amor, pois é esta a única forma de amar alguém - incondicionalmente.

Sei agora o quão especial a Marty foi na minha vida e como sempre, às vezes só aprendemos tarde demais, e só quando ela começou a ficar doente e a perder as suas faculdades, nos apercebemos que nada do que nos irritava tinha importância... pois agora dávamos tudo para a encontrar debaixo dos nossos pés e tropeçar nela e sentimos a sua brutal ausência quando tocam à porta... 

A Marty veio para nos ensinar a aceitar a imperfeição, a sermos menos críticos, menos exigentes com os outros (e como isto é importante para educarmos os nossos filhos) e foi tão especial que até nos deixou no dia em que eu tinha recebido uma péssima notícia, que me iria deixar muito triste e revoltada e que assim foi aceite de outra maneira, pois agora sei que não posso mudar as coisas com raiva, arrogância e sobranceria, pois não é com luta que se muda ninguém (nem o comportamento de um cão ou de um filho), mas sim única e exclusivamente com amor e compaixão.

Por isso, Marty, peço-te que me continues a iluminar ao longo da minha vida e que não me deixes esquecer da lição que me ensinaste, pois quero que continues a viver em mim através da forma como me ajudaste a ser uma pessoa melhor e que isso seja visível para os que comigo lidam.

És especial, és o "mê" cão e és o cão mais lindo do mundo!

 

 

 

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por CrisSS às 08:56

Sexta-feira, 19.02.16

Eu, Cristina, cidadã europeia, cidadã do mundo...

Como sempre, apesar de andar arredada das escritas, todos os dias ao ouvir as notícias da manhã na rádio, algum facto me desperta interesse e convoca em mim um desejo urgente de me manifestar. Hoje foi a notícia sobre os desenvolvimentos na posição do Reino Unido sobre a sua pertença à União Europeia.

Não posso dizer que seja uma europeísta convicta, no sentido de fundamentalista, mas sei que a ideia de uma Europa comum - na defesa dos seus interesses, valores e principalmente dos direitos dos seus cidadãos - me agrada e considero que seja um projeto pelo qual se deve continuar a lutar. Gosto de poder circular livremente por este velho continente, apresentando apenas o BI, e gosto da possibilidade de ser cidadã europeia com os mesmos direitos que os meus restantes congéneres. Acho que estas conquistas da Europa Comum não se devem perder, pois isso seria um retrocesso civilizacional e demonstraria que não é possível vivermos em paz, em harmonia, num designío comum, onde o valor da tolerância impera.

Por isso custa-me ouvir os arautos da desgraça que estão já a afirmar que esta Europa não vai durar e que todo o esforço que alguns (não todos é verdade) desenvolveram para que ela fosse uma realidade, foi em vão, pois a união económica e monetária não passou de uma ilusão, de uma utopia. Mas eu gosto de utopias e acredito que sem elas o ser humano não consegue ser feliz, nem atingir todo o seu potencial...

Sei perfeitamente que a Europa Comum tem muitos problemas e que o sonho fundador está muito longe de ter sido atingido. Também não gostei dos últimos 3 anos nem das imposições externas a que o nosso país esteve sujeito. Mas lembro-me bem que ao longo destes 30 anos recebemos muito dinheiro dessa Europa e que muito do que conseguimos alcançar enquanto país e a evolução de todos os indicadores macro-sociais se deveu a esse dinheiro que nos chegou (embora pudesse ter sido muito melhor aproveitado, eu sei) e principalmente à legislação europeia que nos permitiu sair do atraso crónico em que nos encontrávamos e caminhar no sentido da modernidade, em questões como o ambiente, os direitos humanos, entre muitas outras.

Claro que também me preocupa a situação de todos esses portugueses que foram para o Reino Unido nos últimos anos e todos os outros que ainda estão para ir, procurando fugir à falta de emprego e principalmente de oportunidades de crescimento que é a realidade atual do nosso país. Alguns deles são meus amigos, parentes até. Mas também me preocupam todos os outros, muitos, que são pessoas que eu não conheço, nem preciso de conhecer para saber que estão desesperadas, a lutar pela sua sobrevivência e que vêm à procura precisamente dessa Europa da tolerância, da solidariedade, da proteção na doença, da educação para todos, no fundo aquilo que nos distingue dos seus países e continentes de origem. Vêm à procura do sonho europeu...

E o que distingue o nosso modelo de União Europeia são mesmo estes valores de entreajuda económica, de coesão social, de igualdade e a grande ideia de que os mais ricos ou os mais fortes, podem ajudar os mais fracos ou mais pobres. E é nisto que eu acredito e é por estes valores que me pauto. E só espero que uma grande maioria dos cidadãos ingleses assim também pensem quando chegar a altura de referendar a sua participação nesta Europa Comum. 

Embora a posição do Reino Unido não seja nova e as suas atitudes imperialistas também não, o que me preocupa é o efeito de contágio que a sua saída possa ter em outros Estados membros e a mensagem que passamos para o resto do mundo. Este não é o momento de nos dividirmos, mas sim o momento de nos unirmos. Todos sabemos que o mundo se encontra numa encruzilhada, mas acho que poucos aceitam que enquanto permanecerem os problemas de pobreza crónica, ausência de proteção na doença e acesso à educação de alguns países, muito dificilmente poderemos viver em paz aqui no nosso cantinho.

Mesmo porque já não faz sentido esta apologia do "orgulhosamente sós"... O mundo é global e temos que o aceitar em todas as suas dimensões e não só naquelas que nos interessam, como podermos comer mangas e salmão todos os dias, apesar de eles não fazerem parte do nosso ecossistema local, ou podermos partilhar num segundo com todo o mundo as nossas férias no Brasil ou na Índia... E nós portugueses sempre fomos cidadãos do mundo, tal como a maioria dos seres humanos que sempre se deslocaram por toda a terra, desde os tempos primitivos, à procura de melhor clima, de melhores terras ou simplesmente de melhores condições de vida. A diversidade cultural é uma realidade e sem prejuízo das várias identidades nacionais ou étnicas, acho que só temos a ganhar com o contacto e conhecimento dessa diversidade, da cultura do outro, do diferente.

Não há máxima que melhor traduza o que aqui procurei expressar do que aquele velho slogan que foi mediático há uns anos - "Todos diferentes, todos iguais!" - e é mesmo disto que se trata quando pensamos nesta nossa União Europeia: somos muito diferentes, sem dúvida, mas todos temos também algo que nos aproxima, que é a nossa humanidade, o sentimento de pertença a algo universal, que nos aproxima e que nos faz ser solidários com o outro... Sim, porque acreditem, nós não existimos sem o outro, seja lá ele quem for!

 

 

 

 

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por CrisSS às 09:23

Quarta-feira, 08.07.15

Não mata, mas mói...

Por estes dias fechei mais um ciclo da minha vida, profissional sim, mas também pessoal, porque quer queiramos ou não as duas dimensões estão ligadas... Por conta desse projeto em que andei envolvida não tive tempo para muitas outras coisas, nomeadamente para escrever neste meu blog. E agora aqui estou outra vez a escrever sobre o que estou a sentir, tal como me aconselhou um terapeuta a quem recorri a certa altura da minha vida.

Como todos aqueles de nós, que andam à procura de alguma forma de evoluir como seres humanos aqui nesta existência terrena, também eu tenho procurado aceitar o que a vida me dá e viver em harmonia com o que tenho, e tenho de reconhecer que é bem mais do que têm a maioria das pessoas.

Mas não sou perfeita e de facto ainda não atingi a iluminação, pelo que me doem certas coisas que me continuam a acontecer, as quais eu acho que vou ter sempre alguma dificuldade em aceitar.

Durante o último ano e meio trabalhei num projeto financiado pela comunidade europeia, não interessam aqui os detalhes do mesmo, mas foi um daqueles projetos que veio parar ao meu serviço um pouco por acaso e à revelia da agenda política dos meus dirigentes e que por essa razão não recolheu especial atenção, para não dizer que de facto ninguém teve realmente muito interesse em o desenvolver. Mas lá se criou uma equipa, na qual eu fui incluída, e lá se começou a ver o que era preciso fazer...

A dada altura do processo lá tive que puxar uns galões e passei a ser a gestora do dito projeto, mas tudo muito arrancado a ferros, como é quase tudo na minha vida! Por força deste contexto de algum desinteresse pelo projeto lá consegui trabalhar com alguma autonomia e juntamente com um investigador que foi contratado para o trabalho de campo lá conseguimos desenvolver o plano de atividades previsto, estabelecer uma série de parcerias e criar uma relação de confiança com a coordenação europeia do projeto. Passámos por dificuldades com os procedimentos administrativos e o acesso ao orçamento, não tivemos qualquer apoio político e ainda tivemos que gerir conflitos internos à equipa e mediar relações institucionais, mas no final conseguimos desenvolver um bom projeto e tivemos uma excelente avaliação por parte da comunidade europeia.

Falo-vos disto porque foram realmente 18 meses muito intensos em que trabalhei com gosto e motivada e ao longo dos quais senti que o meu trabalho fazia sentido e que as minhas capacidades e qualidades eram aproveitadas. Foi um período de novas experiências e aprendizagens, ao longo do qual conheci muitas pessoas e tive oportunidade de comunicar de formas muito diversas e de refletir sobre questões essenciais para as nossas sociedades atuais. E foi também um contexto especial em que eu consegui ter algum feedback sobre o trabalho que desenvolvo quotidianamente e sentir que estava a contribuir para algo maior com o meu esforço e dedicação, e principalmente ter algum reconhecimento e valorização do que foi realizado, ainda que não internamente...

Não digo que tenha feito um trabalho excecional de acordo com os padrões de produtividade na gestão de empresas privadas de renome com enormes resultados ou até que tenha sido a primeira vez que eu tenha realizado um trabalho gratificante e importante para a comunidade, mas foi mais uma vez em que eu soube que era possível trabalhar motivada e com objetivos e metas claras a atingir e essencialmente num contexto em que se valoriza e reconhece o trabalho que foi desenvolvido e é isto que faz a diferença!

Podem dizer-me que nesta altura do campeonato já me devia ter habituado a não ser motivada profissionalmente ou a não ter reconhecimento profissional, mas parece que não me habituo... Talvez a culpa seja daquelas teorias todas de gestão da motivação, da liderança positiva e da psicologia motivacional que li quando andava a estudar ou seja do facto de diariamente lidar com empresas jovens onde a equipa é o mais importante e a liderança é eficaz na definição de metas e na orientação e reconhecimento do valor de cada um para o resultado final, mas o que é certo é que me custa esta indiferença e este assumir que:"não fez mais do que a obrigação", ou "é para isso que lhe pagamos" ou "tem sorte em ter emprego, de que se queixa?"

E o pior é que, neste contexto de ausência de liderança e de não definição de novos objetivos, para aqui vamos andar todos, como é habitual, a rivalizarmos, a pisarmo-nos uns aos outros para tentar chegar à confiança dos dirigentes, a lutarmos por uma migalhinha de atenção e de reconhecimento, na esperança de uma oportunidade de podermos utilizar as nossas capacidades e evoluirmos profissionalmente, a competirmos por um novo projeto ou apenas por uma tarefa mais aliciante, no fundo quais animais numa selva agreste a lutar por um bocado de comida... Meus amigos, é isto que se sente a trabalhar na administração pública ao fim de muitos anos e nem falo da questão da progressão na carreira, pois essa está dependente da variável sermos ou não da confiança política de quem decide. 

E é para isto que eu volto agora que acabou o meu projeto...

A dada altura o colega de fora com quem trabalhei dizia-me que se estava a perder uma boa investigadora e eu em tempos também pensei nisso, mas acho que não, porque apesar de eu gostar de ler e escrever e de a aquisição de conhecimento ser para mim um dos maiores valores, não tanto para a inovação tecnológica, mas sim para formar cidadãos no caminho para um mundo mais tolerante, igualitário e de justiça social para todos, o que eu quero mesmo é comunicar, é trabalhar para os outros, é ajudar no que for preciso, é estar lá para fazer e sentir que o que eu faço contribui para mudar alguma coisa.

Por isso vou continuar aqui na minha luta e vou esperar por um novo ciclo, ou até criar um novo projeto, pois apesar de moer, ainda não me mataram...

 

PS: E obrigada André por teres sido a única pessoa, para além dos nossos parceiros, que me fez sentir que valeu a pena!

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 09:19

Segunda-feira, 16.02.15

O que eu herdei do meu pai e da minha mãe...

Ontem o meu pai teve um pequeno incidente de saúde, aparentemente sem gravidade, mas mais uma vez dei-me conta da sua vulnerabilidade e confrontei-me de novo com o facto de que ele não vai ficar cá para sempre...

Era o dia de anos da minha mãe e apesar de ela ser uma pessoa de personalidade muito difícil e pouco acessível, eu nesse dia apenas consegui reter a sua carência extrema e a sua enorme necessidade de afeto, comprovada pela evidência de que começava a chorar sempre que recebia um abraço ou alguma atenção mais particularizada...

Enfim, dei-me conta de que estão velhos, e o que é pior, de que não estão a envelhecer bem, o que não é novidade, mas está-se a tornar mais evidente e premente a cada dia que passa.

A relação com os nossos pais é dos processos psicológicos mais difíceis por que temos que passar na vida, mesmo quando as coisas correm bem, pois um dia essa relação terá que terminar abruptamente. Apesar de sermos todos indivíduos que querem viver o melhor possível as suas vidas, às vezes as relações familiares são a pedra no sapato que não nos deixa ser felizes e o osso duro de roer que nos acompanha ao longo do nosso crescimento físico e especialmente emocional.

É certo que não pedimos para nascer, mas também é verdade que os nossos pais não pediram para ter os pais que tiveram e aquilo que a vida nos demonstra é que por mais que nós queiramos ser melhores do que os nossos pais há uma herança genética e outra cultural que nos determina e que se for excelente, tanto melhor, mas se for resultado de uma infância traumática ou tão só marcada pela ausência de um modelo parental, parece ser decisiva para um caminho pessoal e familiar cheio de dificuldades. E que se reproduz de geração em geração, sendo necessário um esforço imenso de auto-análise e às vezes de ajuda terapêutica para se conseguir formar uma família mais funcional e equilibrada do que foi a dos nossos progenitores.

Apesar de tudo o que é hoje a minha família, acho que os meus pais conseguiram dar um salto qualitativo em relação à sua família de origem, pois foram pais dedicados às filhas, fazendo todos os sacrifícios para o seu bem-estar, talvez até demais... 

Lembro-me muito bem que o meu pai colocou as filhas e a mulher sempre em primeiro plano em detrimento da sua carreira profissional e o melhor exemplo disso são as tardes em que ele saía do trabalho às 16h30 para ir ter connosco ao jardim ou ao parque infantil, em vez de ficar no trabalho até mais tarde, tal como faziam os seus colegas na expetativa de uma futura promoção.

Sim, porque o meu pai foi um pai sempre presente: nas explicações de matemática e de educação visual (não posso contar isto ao meu filho), no acompanhamento das reuniões de escola, nas noites de tosse sem dormir, nas tardes de domingo a ver televisão, na partilha de muitas leituras e livros policiais na adolescência, nos jogos de paciências e master mind e de tantos outros momentos do quotidiano familiar que eu adorava e que me fizeram adorá-lo....

Se eu pensar agora o que herdei do meu pai não tenho dúvidas em dizer que herdei o gosto pela leitura, o sentido de honestidade, a integridade moral, uma ética de excelência e a valorização extrema da lealdade! Áh, e claro o espírito de sacrifício e de dever. Não foi uma herança pequena!

Já a minha mãe, simplesmente sacrificou a sua recém conquistada liberdade, conseguida atráves de uma ainda incipiente mas muito almejada carreira, para criar as suas filhas, numa época em que ser mãe e profissional ainda não era bem visto pela sociedade e a pressão social era no sentido de a mulher ser dona de casa e mãe, principalmente no caso das que não tivessem necessidade económica de trabalhar. E aparentemente ela não tinha. Foi para casa ter uma filha e depois a outra e quando um dia sentiu que queria voltar ao trabalho, já não conseguiu, tinha sido ultrapassada pelas circunstâncias da sua vida e do mundo do trabalho em constante evolução. Ainda estudou um pouco mais, fez alguns cursos de artes decorativas, cantou num coro juntamente com o meu pai, e depois desistiu de lutar, apanhada nas teias de uma depressão que nunca mais a abandonou e que transformou a sua vida num inferno de recriminações e de doenças mais ou menos psicossomáticas. 

Da minha mãe também herdei muita coisa! A principal: o gosto pela natureza, pelos animais, pelas plantas e por todo o universo, pois para ela o mundo já foi muito pequeno, tal como para mim o é hoje, e a ânsia de viajar e conhecer outros mundos que a levou aos 20 e poucos anos a querer ficar em África é a mesma que eu sinto e que me faz querer partir sempre que posso. O espírito de aventura é dela, como quando me ensinou a nadar e a confiar na nossa intuição, flutuando na água e indo para fora de pé até onde as pessoas fossem apenas um pontinho na areia da praia. O temperamento reivindicativo, a não submissão, a luta contra as injustiças e o espírito revolucionário também vieram dela e é por isso que eu continuo a querer mudar o mundo...

É pena, eles já foram tanto, e agora apenas vejo duas pessoas tristes, sem objetivos, sem propósitos na vida, a não ser viver um pouco através das alegrias que as filhas e os netos lhes dão, mas mesmo isso sem muito ânimo ou força que os faça vibrar de novo com energia e folêgo para continuar essa grande aventura que é viver. E isto moi-me, dá cabo de mim e faz-me desesperar porque a vontade é abaná-los e gritar-lhes que não desistam de novo, que ainda há tanto para fazer, para ser, para viver!

Mas a vida é deles e a única coisa que posso fazer é pegar em tudo aquilo que eles deixaram em mim e viver por eles, continuar em frente, sempre a lutar pelos meus sonhos e a acreditar que eu e o meu filho vamos conseguir tornar este mundo um sítio melhor para se viver... 

 

 

 

 

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por CrisSS às 18:40

Sexta-feira, 09.01.15

Tenho um filho igual a mim... e agora?

Pois é verdade, tenho vindo a constatar que o meu filho está cada vez mais parecido comigo! Assim, à primeira vista até parece uma coisa boa, mas de facto, não é... Não é, porque pelo que me apercebo as características de personalidade que ele herdou de mim não são aquelas das quais eu até me orgulho e inacreditavelmente parece que ele apenas herdou as coisas más!

Para agravar, em reunião com a diretora de turma esta semana tive a oportunidade de ver resumido o meu filho, essencialmente, a dois traços distintivos: distraído e conversador! E naquele momento a única imagem que me vinha à cabeça era uma ficha de avaliação minha desta altura onde apareciam inevitavelmente as mesmas palavras apenas com uma alteração de género: distraída e conversadora! E agora como lidar com isto?

Perante a minha perplexidade pelas semelhanças comigo, como por exemplo, a inabilidade para a educação visual, que se tivesse saído ao pai não teria, dado que ele é barra no assunto, e talvez para me tranquilizar (ou não), a diretora de turma lá foi dizendo que estava provado cientificamente que os filhos herdam a parte cognitiva da mãe e a parte emocional do pai! Imaginem o que eu fui gozada, lá em casa,  pelo progenitor masculino que passou a alardear a sua inteligência e QI elevados, lamentando a desgraça do filho que não pode ser herdeiro desses atributos.

Enfim, agora aqui estou eu, desesperada a imaginar já o meu filho num futuro longínquo: infeliz nas suas escolhas profissionais, sempre mais preocupado com os outros do que consigo próprio, incapaz na matemática, educação visual e disciplinas afins, mas sempre com uma palavra a dizer sobre tudo e sobre todos, às vezes sem pensar e arcando com todas as consequências que daí advêm. Têm que concordar que não é um bom prognóstico.

O mais engraçado é que, no geral, as pessoas querem que os seus filhos sejam iguais a elas ou que de alguma forma misteriosa consigam cumprir os destinos sonhados e muito almejados que muitos pais e mães definiram para si próprios e que por infortúnios aos quais eles foram completamente alheios não conseguiram concretizar e apenas têm agora esta última oportunidade de serem felizes através dos seus filhos e filhas. Mas este não é o meu caso...

Nunca quis que o meu filho fosse igual a mim e acho que não tenho assim um percurso tão invejável que ele deva usar como modelo ou imitar. Tive sempre muitas certezas e achei sempre que sabia o que queria (até mais do que os outros) e raramente ouvi conselhos ou acatei o que os mais sábios tinham para me dizer. Não pensem aqui que era uma anarquista sem lei nem roque (não era de todo), mas sempre fui um bocadinho senhora de mim, o que na minha vida, principalmente profissional, foi sempre encarado como sobranceria, tendo até muitas pessoas com quem me cruzei ficado com a imagem de que eu seria uma pessoa arrogante, autoritária e convencida.

Digo tive, porque lá acho que fui mudando um pouco e a vida lá se foi encarregando de me fazer ver que não sou a dona da verdade e que as coisas às vezes não correm como nós queremos. Mas isso foi um pouco mais tarde. E agora o que vejo é um filho muito parecido comigo, embora ainda muito invisível sem se destacar especialmente em nada, tal como eu o fui até aí aos dezassete anos.

Claro que como a maioria dos pais adoro o meu filho e cá estarei sempre para o apoiar e ajudar nas suas escolhas e opções futuras, mas gostava mesmo que ele fosse muito diferente de mim, que ele tivesse algum dom escondido, alguma capacidade extraordinária, alguma ambição ou sonho precoce que o definisse e o marcasse de forma indelével ao longo da vida.

No fundo, acho que o que eu queria era que ele descobrisse desde já o seu propósito na vida e que nunca andasse perdido ou tivesse que sentir a frustação de não estar realizado, ou seja, secalhar não sou assim tão diferente da mãe que queria ser bailarina e não conseguiu e não hesitou em colocar a sua filha no ballet aos dois anos ainda mal ela sabia andar.

O que eu quero é que ele seja mais feliz que eu e que aproveite esta vida da melhor forma, fazendo tudo o que tem direito sem hesitações ou dúvidas existenciais! Mas isto é algo que eu só sei agora, depois de tudo o que a vida me ensinou, por isso ele vai ter que fazer a sua travessia do deserto e eu apenas posso estar aqui para iluminar o seu caminho.

E quem sabe talvez ele tenha saído também ao pai e o tal lado emocional prevaleça, porque com o meu lado cognitivo secalhar ele não se safa...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 12:23

Segunda-feira, 29.12.14

No rescaldo do Natal...

Aqui estou eu no rescaldo de mais um natal, entre mortos e feridos, lá me salvei mais uma vez, mas as cicatrizes são grandes e a vontade de desistir é cada vez maior...

Perguntam vocês: mas desistir do quê? Do natal? E atónitos, relembram-me que há uns dias atrás estava eu tão entusiamada, a publicar fotos da minha árvore e presépio no facebook e até a fazer postais de natal digitais para enviar aos colegas! Então, mas o que aconteceu? O que mudou entretanto?

De facto, não aconteceu nada que não seja habitual, nada que não seja normal na minha vida, isto é, apesar do meu entusiamo acerca desta época natalícia, tudo parece concorrer para que esta data seja apenas o momento costumeiro de expetativas defraudadas e tensão familiar...

Eu gosto do natal, realmente gosto, e não me caiam em cima aqueles que acham que o natal já não é o que era, que se transformou numa loucura consumista, que é um período de egoísmo em que para nos sentirmos melhor com a nossa consciência resolvemos ser solidários, que o natal deve ser todos os dias e etc, etc. Eu não enfio essa carapuça, pois não consumo em excesso no natal (a não ser doces, é óbvio!), sou solidária sempre que posso ao longo do ano e não especialmente no natal, e o meu natal é sempre o que era, porque insisto em preservar as minhas tradições contra tudo e contra todos! Porque o natal para mim é isso mesmo: um ritual de partilha e de convívio. E na minha modesta opinião os rituais fazem falta na nossa vida dita moderna e são algo que eu gosto de cultivar e manter.

Os rituais fazem falta porque nos obrigam a parar para refletir e organizar as emoções, por um lado, e por outro lado, porque nos fazem elevar o espírito acima do quotidiano, celebrando a existência com aqueles que nos são mais próximos, de preferência em alegria e comunhão.

Desde sempre a humanidade sentiu necessidade de ter rituais e acreditem foram eles, também, que nos ajudaram a distinguir dos animais e a formar uma consciência coletiva que deu origem a sociedades cada vez mais complexas e à civilização como nós a conhecemos hoje. Esses rituais podem ser coisas tão simples como elaborar um presépio ou enfeitar a árvore de natal ou algo muito mais elaborado como juntar um grupo de pessoas num determinado local especial e em conjunto juntarem energias, pensamentos e ações com um objetivo comum, seja ele a paz espiritual ou a festa pura e simples.

Estes rituais fazem-nos falta, pois permitem-nos reunir afetos e sentimentos à volta de um tema que nos importa e que é significativo para nós e, principalmente, porque são momentos de partilha coletiva, de construção de comunidade e de sentimento de pertença a algo maior, algo que nos transcende e que nos eleva!

Por tudo isto o natal é para mim importante, pois é um desses momentos rituais e é como tal que eu o identifico. Para mim o natal é um ritual que nos mobiliza a todos e que pode ser um desses momentos raros em que nos sentimos maiores, mais dignos, mais em paz connosco e com os outros.

Mas o pior é quando não é...

E depois da expetativa estar criada é muito difícil aceitar que não seja, mas podem ser tantas as razões para o natal não ser tudo aquilo que esperamos. Tantas coisas se jogam nesses dias, tantos imprevistos podem acontecer... Estou a lembrar-me da pessoa que está sozinha na vida, do familiar que adoeceu e está ausente, da amiga que está longe do país, do filho que este ano passa o natal com a família do pai, das famílias que não têm dinheiro para a ceia de natal, dos pais e avós que partiram e já não estão entre nós e dos membros da família que aproveitam este dia para expor todo o seu mal-estar e reivindicar tudo o que não conseguiram viver nos anos que passaram, sem se darem conta dos outros que fazem parte das suas vidas e que queriam viver o natal em harmonia.

Perante este cenário podemos fazer o exercício de pensar que a vida é assim e aceitar que nem tudo é como nós queremos, mas fica sempre uma pequena mágoa, porque não somos perfeitos e porque desejámos que este fosse um natal de paz, harmonia, alegria, amor e acima de tudo compaixão...

Talvez seja assim que eu me consiga reconciliar com o meu natal e pensar que tenho que transformar a memória deste meu ritual, num processo de compaixão e perdão, bem dentro do espírito desta época e mais uma vez aceitar que não posso mudar o passado, nem as pessoas que são a minha família e que em vez de me zangar por isso, tenho que ficar contente pelas outras pessoas que tenho, família e amigos e que fazem parte do meu círculo afetivo e com as quais posso e devo reeditar rituais passados e construir também novos, porque não?

Pois é isso mesmo que vou fazer, repensar o meu natal, e não esquecendo as minhas tradições e aquilo que me conforta, encontrar um novo caminho para o meu ritual, onde os imprevistos existem, é claro, mas acima de tudo a partilha e a comunhão de ideias entre pessoas que querem mesmo estar juntas em paz e harmonia é o principal elemento a celebrar!

E tem mesmo que ser assim, pois tenho um filho que precisa de ter um verdadeiro ritual para perpetuar no futuro...

 

 

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 14:31

Quinta-feira, 21.08.14

Elogio da amizade

Nem vou comentar a minha ausência mais uma vez, pois não sei explicar porque não escrevo como gostaria, apesar de todos os dias me virem à cabeça ideias, temas, assuntos, sobre os quais gostaria de falar e escrever, e que poderia partilhar como é suposto neste meu blog. Em última  análise chego à conclusão que sou preguiçosa, ponto final. Sim, é isso sou preguiçosa (embora esteja sempre em permanente atividade e numa espiral de movimento!) mas a realidade é que encontro todas as desculpas para não escrever, o que é pena, dizem-me.

 

E quem mo diz são os meus amigos e amigas e é por eles e para eles que cá estou novamente a escrever umas linhas sobre, precisamente, a amizade.

 

Sempre tive muitos amigos (perdoem-me se daqui para a frente não diferenciar o género) e nunca senti falta de estar acompanhada. Não sei o que é a solidão, nesse sentido, e sei que sou uma privilegiada por isso, pois essa é mais uma das coisas pelas quais devo estar grata na minha vida.

 

Tenho amigas e amigos de todas as "espécies", de vários contextos e conjunturas, de sempre, de todos os dias, de longe, da família e gosto muito de os ter e de cultivar essas amizades que me enchem o coração e tornam a minha vida muito mais colorida.

 

Tenho amigos de infância, uns da escola primária, outros vizinhos com os quais brincava na rua, que se mantêm ao meu lado até hoje! Tenho amigos da adolescência, das noitadas da juventude, das tertúlias no café do bairro. Tenho amigos da faculdade, com os quais vivi intensamente esse período de formação profissional, mas principalmente, pessoal. Tenho amigos do trabalho, que se têm mantido ao longo do tempo, apesar das mudanças de serviço por que todos vamos passando. Tenho amigos da escola do meu filho, contexto que nos juntou já desde a creche e com os quais vou dividindo as angústias da parentalidade e outras angústias.

 

O que mais me apaixona nesta coisa da amizade é que quando é verdadeira não esmorece e sobrevive a todas as diferenças, às distâncias, à passagem do tempo, às zangas, aos afastamentos e às vezes até sai fortalecida.

 

Também me fascina o facto de não sabermos explicar porque somos amigos de determinadas pessoas, ou como nasce uma amizade (embora tenha lido à pouco tempo de que parece que há uma semelhança qualquer genética entre os amigos, o que não me admira), apenas sentimos que aquela pessoa nos é muito próxima, nos compreende como ninguém e sabemos que estará lá para o que der e vier...

 

Gosto da sensação de intimidade e segurança que me dá o facto de poder ligar a uma amiga que está longe e que não vejo à anos e saber que vamos falar como se estivessemos estado juntas ontem e sentir que apesar de nem termos partilhado a vida quotidianamente, ela sabe o que eu estou a sentir e eu compreendo o que ela está a passar.

 

Gosto da intensidade com que se pode discordar de uma amiga e até às vezes dizer coisas que magoam, para a seguir perdoar ou pedir desculpa, porque o que importa é reconhecer que errámos ou que nos excedemos e manter acima de tudo a nossa amizade.

 

Gosto destas zangas que nos permitem conhecer melhor o outro e ir mais fundo na amizade, que é também reconhecimento da importância que o outro tem na nossa vida e de que podemos evoluir juntos como amigos.

 

Gosto muito de rir com as minhas amigas, de dançar, da cumplicidade de um jantar ou de um almoço, ou até de um telefonema onde falamos de tudo e de nada, reforçando o ritual da partilha de sentimentos e emoções que é a base da amizade.

 

Gosto mesmo muito dos meus amigos e por isso não resisto a partilhar com vocês um pequeno texto que escrevi recentemente, por ocasião de um dos momentos mais especiais da minha vida, no qual mais uma vez os meus amigos e amigas se revelaram extraordinários na sua amizade, e que quero agora dedicar a todos os meus amigos em geral:

 

"Queridos amigos e amigas,

Nem imaginam o quanto é importante a vossa amizade!

Todos nos conhecem já há algum tempo, uns são amigos de longa data, outros mais recentes, mas os laços que nos unem a todos vós são muito fortes e foram tecidos numa partilha diária de alegrias, tristezas e principalmente numa partilha constante de cumplicidades e até intimidades…

É de todos estes momentos que se faz a amizade, até que finalmente ela é já tão intensa, tão vivida e tão cheia de luz e paz que se transforma no fundo naquilo que ela sempre foi um acto de amor, entre almas gémeas, que juntas riem, choram, gritam, refletem e ficam em silêncio quando é preciso…

Ter amigos é tão bom como estar enamorado e algumas vezes eles são tão (ou mais) importantes que a nossa família, por isso muito obrigada por estarem connosco mais uma vez e por serem nossos amigos!

Do fundo do coração..."

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por CrisSS às 13:31

Quinta-feira, 16.01.14

Regressar das trevas...

Pois é, cá estou de volta! Para os mais distraídos a minha ausência não foi notada, mas acredito que os meus fieis leitores (julgo que 3, eh, eh) devem ter dado pela minha falta...

 

Brincadeiras à parte estive realmente ausente, em espírito claro, pois não saí daqui, do nosso cantinho à beira mar plantado.

 

Tal como não sabemos o que nos faz afundar numa tristeza imensa, também não temos a certeza do porquê de um dia voltarmos a acordar com vontade de cantar, dançar ou apenas sorrir e abraçar aqueles de que mais gostamos...

 

Hoje em dia evito rótulos e tento não dar nomes às coisas que sejam definitivos, finais e irrevogáveis, por isso não me interessa muito nomear o meu estado de espírito dos últimos meses, mas acho importante reconhecer que algo se passou, que alguma coisa se ensombrou dentro de mim, e me roubou a energia e a alegria de viver.

 

Nesta altura devem estar a pensar - Eu não sabia!, Eu não notei nada! - e realmente a minha vida continuou como sempre, com as rotinas habituais e os compromissos cumpridos. Com algum custo...

 

As pessoas viram-me a rir, a trabalhar, a falar, mas algumas também me viram a chorar muitas vezes...

 

Mas o que vos quero dizer é que já não estou triste por causa desses momentos, é que agora sei que isso faz parte de viver, de crescer emocionalmente e que talvez seja mesmo necessário a certa altura da nossa vida sentirmo-nos assim para podermos olhar mais para dentro de nós próprios e procurarmos o que nos dói, e enfrentarmos o que nos está a fazer sofrer. E pode ser tanta coisa!

 

Eu, tal como muitos de vocês, tinha medo de parar e olhar para dentro de mim, tinha muito medo não tanto do que poderia encontrar, mas mais do que teria de aceitar. Sim, porque posso garantir-vos que é disso mesmo que se trata - de aceitar o que não podemos mudar!

 

Em primeiro lugar, tive que aceitar que a vida não é como nós queremos e que não posso controlar tudo!

 

Tive que aceitar que a minha família não é aquela que idealizei, que os meus pais também têm problemas e muitos assuntos por resolver, e principalmente tive que aceitar que não posso fazer nada para mudar isso!

 

Tive que aceitar que a minha vida profissional não teve o sucesso que eu imaginei, que o meu idealismo não se coaduna com a minha profissão atual e que a minha exigência e mania da perfeição só me farão infeliz no local de trabalho!

 

Tive que aceitar que a minha relação não é igual à dos filmes e que ser romântica é bom, mas viver a realidade que tenho e construir mais a cada dia é um caminho mais seguro para a felicidade a dois!

 

Tive que aceitar que os filhos são o que são e que as nossas ambições e sonhos para eles, não são mais do que isso - os nossos desejos - e não aquilo que eles querem ou aquilo para o qual eles estão mais vocacionados. E isso não significa que eles não sejam maravilhosos!

 

E, principalmente, tive que aceitar que não podemos viver sem cuidar do nosso lado espiritual e isso passa em primeiro lugar por enfrentarmos o nosso grande medo - a morte! Para aceitarmos que vamos de facto morrer, temos que ter alguma fé, alguma esperança, alguma intuição que nos tranquilize, que nos faça ficar em paz com essa ideia e que nos permita aproveitar este grande privilégio que é a vida. E posso dizer-vos que a partir do momento em que aceitamos a ideia da morte, tudo faz mais sentido e começamos realmente a viver e a estar no presente que é a única coisa que realmente importa.

 

O meu conselho é que procurem o que vos traz a paz interior. Acabem com as relações tóxicas, que só vos põem para baixo, terminem com as obrigações estéreis, que não acrescentam nada à vossa vida, explorem novos caminhos, reunam-se com novas pessoas que vos podem trazer luz e energia positiva para o vosso presente. Criem, usem, abusem de rituais de partilha, momentos de meditação, encontros de evasão, grupos de reflexão, pois nós não conseguimos viver sem esses rituais que sempre existiram ao longo dos séculos e nos permitem elevar acima do quotidiano, do vulgar, do terreno, se quiserem. Seja através da dança, seja através do riso, da música, do teatro, da simples tertúlia entre amigos, da caminhada, do silêncio, encontrem aquele espaço, aquele momento que é vosso e daqueles que estiverem a sentir o mesmo e que queiram partilhar convosco o desejo de paz.

 

Comecem já, não julguem que esta procura pode ser adiada, que é muito difícil e que não vão conseguir. Pois outra coisa que eu tive que aceitar é que ninguém é responsável pelo que nos acontece ou pela nossa vida - só nós é que nos podemos ajudar a nós próprios...

 

 

 

 

 

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por CrisSS às 11:26


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